Travesti, negra e presidiária: os espancamentos de Verônica

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Ilustração de Ana Maria Senna. O Gemis não irá compartilhar
as imagens de Verônica espancada em respeito a ela.
Texto: Débora Fogliatto

Na última semana, circulou pela internet fotos de uma travesti presidiária sentada, com o rosto espancado e os seios à mostra. Em outra imagem, ela aparece deitada de costas, com as calças rasgadas. Essas fotos, provavelmente tiradas por algum agente penitenciário, foram espalhadas pela mídia ao lado de outra, de um funcionário da prisão com a orelha cortada. Nas matérias, essa era a única preocupação. Pouquíssimas reportagens deram atenção às imagens da travesti sentada, espancada, humilhada.

Seu nome é Verônica, mas isso foi quase totalmente esquecido pela mídia. Na maior parte dos casos, ela foi tratada somente como "um travesti" -- assim mesmo, no masculino. Além de ter seus machucados ignorados, sendo tratada apenas como agressora, ela teve sua identidade desrespeitada.

Ela foi presa em São Paulo acusada de agredir uma idosa durante uma discussão em seu prédio, mas os motivos que levaram à sua detenção não são o ponto principal. Mesmo se tivesse cometido um crime grave, nada justifica o espancamento, que a deixou desfigurada. A "briga" entre Verônica e o carcereiro teria ocorrido durante uma transferência de cela no 2º Distrito Policial Bom Retiro. O que parece ter acontecido, porém, foi um caso claro de tortura.

O site A Capa, do UOL, foi o único a fazer uma reportagem preocupada com o estado de Verônica, e não apenas abordando o lado policial. Ao jornalista Neto Lucon, uma amiga de Verônica disse: "Não estamos defendendo o que ela fez, mas houve abuso de poder e nada disso está sendo falado. Nem mesmo em outros casos, vemos um preso sendo tratado assim. Por que ela é travesti pode ter a cabeça rapada, ser desfigurada e ficar com os seios expostos? Será que se fosse uma mulher o tratamento seria o mesmo?"

Jarid Arraes, em sua coluna na revista Fórum, também levantou questionamentos importantes, criticando a falta de respostas sobre o espancamento de Verônica. "Não importa se Verônica estava detida ou pelo que foi acusada. Nenhum policial tinha o direito de espancá-la e humilhá-la. Nenhuma pessoa, não importa a farda que use, tinha o direito de despi-la e fotografá-la para que fosse exposta", afirma.
Ilustração de Vitor Teixeira

As reportagens vinculadas na mídia ainda afirmam que ela irá responder por lesão corporal grave, evasão mediante violência contra pessoa e resistência. Nem uma palavra foi dita sobre possíveis punições aos agentes que a espancaram, nem uma investigação sobre isso foi mencionada. Hoje, acontecerá uma audiência com a participação da própria Verônica, na 2ª DP em Bom Retiro, São Paulo. Quem sabe, então, novas informações possam ajudar a elucidar o caso.

Na internet, entidades de direitos humanos e direitos LGBT se mobilizam em uma campanha online para exigir justiça e respostas no caso. Cartunistas e ilustradores se somaram à causa, compartilhando desenhos na página Somos Todas Verônica. Diversas ativistas trans e feministas elaboraram textos e reflexões sobre o tema, incluindo a Travesti Reflexiva, Daniela Andrade e Maria Clara Araújo.

O Gemis se une a essa campanha, por justiça para Verônica, respeito aos direitos das travestis e das pessoas em privação de liberdade. Nós também somos Verônica.



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