II Roda de Conversa debate a pluralidade das vivências feministas na mídia

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Foto: Camila Cunha/Gemis
Texto: Jessica Gustafson 

A abertura da mídia para os temas que envolvem os movimentos feministas representa considerável avanço na tentativa de minimizar os preconceitos de gênero e de denunciar as violências e abusos. Em contrapartida, o aumento das produções pode não significar a redução das desigualdades, visto que a própria escolha das pautas tende a deixar de fora diversas representatividades e pluralidade das vivências, inviabilizando parte importante da militância. Consequentemente, a mídia passa a trabalhar na manutenção dos padrões e normas sociais que pretensamente deveria tentar romper ou ao menos problematizar.  Estes e outros temas correlatos foram debatidos na II Roda de Conversa do Gemis, realizada neste sábado, na Aldeia, que teve como ponto de partida as narrativas midiáticas que vêm sendo produzidas neste sentido.

Cláudia Campos, especialista em história africana e afro brasileira, designer de moda e ativista pelos direitos da mulher negra, trouxe exemplos de capas de revistas de moda que, mesmo na escolha de modelos negras, reforçam estereótipos ao escolher mulheres de fenótipo branco. “Observo que são pouquíssimas mulheres negras e quando o fazem é neste padrão, que impõe que se diminua os seis, a bunda e o nariz. A mídia vai estar sempre ditando estas regras. Então, é preciso muita autoestima para conseguir pensar que não é preciso se enquadrar”, afirmou. Ela ressaltou que a disseminação do estereótipo europeu, além de desvalorizar a mulher negra, tem como efeito rebote a hiper-sexualização dos corpos. “Ela acaba aparecendo no Carnaval como objeto sexual. Onde eu vivia, o Carnaval era um evento cultural, mas para os de fora era visto pelo viés da objetificação”, explicou.

Foto: Camila Cunha/ Gemis
A própria Cláudia preferiu deixar de lado os programas de televisão por este motivo. Recentemente, ela assistiu à novela Babilônia para analisar as personagens negras, e observou que as situações vividas pela personagem de Sheron Menezes, que interpreta uma advogada bem sucedida e que enfrenta o racismo no ambiente de trabalho, são comuns. “Quando temos um cargo, as pessoas acham que não é o lugar do negro, sendo visto como um intruso. Para as mulheres é ainda pior”, argumentou.

Claudete Costa, jornalista, militante da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL/RS) e membro efetivo do Conselho Nacional de Saúde, comentou sobre a mesma novela, especificamente o primeiro capítulo. “Esperamos há anos um beijo como o das atrizes de Babilônia, mas agora falam em beijo gay. Qual o problema de ser um beijo lésbico?”, questionou. Ela provocou que a invisibilidade é ainda maior quando se trata de uma mulher lésbica, negra e da periferia. A escolha das pautas também esbarra nestes marcadores, até mesmo nas matérias que envolvem os movimentos sociais. Coletivos feministas formados por pessoas universitárias encontram muito mais espaço nos veículos de comunicação do que os com integrantes da periferia, por exemplo. 

Além da mídia e os critérios de noticiabilidade, a crítica do debate se voltou contundentemente à universidade, não apenas na omissão aos casos de abuso que ali acontecem, como nos trotes, mas também nas falas dos professores, como o caso relatado por uma participante da roda de um docente de uma Faculdade de Comunicação que disse para a aluna que não gostava do termo “empoderamento”, criticando seu trabalho para uma cadeira específica.

Marcia Veiga, integrante do Gemis e uma das mediadoras da Roda, lembrou que a falta de discussão de temas como raça, gênero e sexualidade começa dentro da escola e continua nas universidades. A estudante de Letras Isadora Cabral, contou que poucos professores apoiam as discussões sobre temas feministas. “A universidade está muito fechada e lá dentro ocorrem trotes machistas. Temos como missão auxiliar as meninas a ter autoestima, no sentido de se tornarem confiantes e entrar na conversa”, relata. Ela integra o I Am That Girl: Porto Alegre,  que fazer parte de um movimento mundial que inspira as meninas a amar, expressar e ser quem elas são.
Foto: Camila Cunha/Gemis

Sobre a busca por espaços que possibilitem que estes assuntos sejam problematizados, no sentido de superar a superficialidade das narrativas, Nádia Alibio relatou o processo de elaboração da revista Sextante, produzida por estudantes de jornalismo da Ufrgs, que teve o tema “mulher”. Segundo ela, no início a proposta não pareceu um desafio. Entretanto, as dificuldades foram aparecendo no caminho. “Realizamos todo um trabalho de reflexão com os colegas, tentando determinar o nosso local de fala. Jornalismo é uma coisa coletiva, então debater juntos foi construtivo”. Entre os objetivos estava não apenas falar sobre assuntos de gênero, mas entender como se dá a construção de gênero na sociedade.

Outra boa iniciativa apresentada na roda foi o Grupo Empoderamento da Mulher.  Carla Zanchetta explicou que são realizados encontros com diversas temáticas feministas e também exercícios de empoderamento nas empresas. Uma destas ações foi feita em uma grande empresa de publicidade. “Muitas pessoas não conhecem e ficam assustadas com o tema feminismo. Quando falamos no termo sororidade, ele despertou grande interesse e é a partir daí que mudamos nossa visão sobre as mulheres”, contou.


A roda foi realizada na Aldeia (Santana, 252), no último sábado (21), a partir das 16h. Nos próximos meses, o Gemis deve realizar mais atividades do tipo. 

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