Babilônia – primeiras notas sobre duas velhas sapas e a reação conservadora

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Texto: Fernanda Nascimento

Foto: Divulgação Rede Globo
A telenovela Babilônia é a 65ª narrativa do gênero veiculada pela Rede Globo com personagens LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais). Se desde 1970 são veiculadas telenovelas com personagens que integram esta parcela da população, em raros momentos se viu LGBTs com mais de 60 anos. Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) não são o primeiro casal LGBT de idosas, já que Quintino (Edney Giovenazzi) e Silvano Cibulski (Sérgio Mamberti), de Sabor da Paixão (2003), revelaram no último capítulo da trama que eram um casal, mas há grandes diferenças nestas narrativas separadas por mais de 10 anos.

Enquanto Quintino e Silvano escondiam sua relação e, ao longo da trama, o público acreditou que disputavam o amor de Hermínia (Aracy Balabarian), Teresa e Estela são um casal que não se esconde, que diz, que beija, que se ama para todos verem. Desde o primeiro capítulo, com um dos primeiros beijos da telenovela.

A relação de Teresa e Estela tem, pelo menos, três marcadores identitários que as colocam abaixo na hierarquia da sexualidade – pensando nos termos de Gayle Rubin: são mulheres, são lésbicas e, principalmente, são idosas. Duas velhas sapatões invadindo a televisão e questionando valores acerca da sexualidade. Duas velhas que nos fazem repensar a questão geracional e o quanto gênero e sexualidade tem, de forma geral, uma reflexão pouco ampla das diversas nuances que compõe as identidades.

Lésbicas não envelhecem? Gays não envelhecem? Transexuais não envelhecem? A resposta poderia ser sim. Mas também poderia ser não. Lembro de conversas entre amigos, nas quais falávamos sobre essa necessidade de se repensar a geração, de como estes contingentes populacionais são (ainda mais) invisibilizados a partir de uma determinada idade e, sobretudo, o quanto ao longo do tempo tem suas vidas tolhidas. A expectativa de vida de transexuais é de 37 anos, por exemplo. Ao que parece, algumas pessoas podem envelhecer, outras não, e se forem LGBTs, melhor não ver esse bando de viado, sapatão e travesti decadente.

Teresa e Estela são ricas. Teresa e Estela são brancas. Teresa e Estela por estas características de raça e classe social tem privilégios inegáveis. Querem o casamento civil, enquanto bichas pobres de periferia querem só sobreviver. Mas isso não tira o mérito de uma representação na qual se questionam tantas fronteiras demarcadas.

E neste cenário de tensões, a onda conservadora veiocom tudo. Boicote à telenovela. Reclamações em sites de notícias. Ódio e mais ódio. Nada de novo neste caso. A lista de novelas que modificaram suas personagens LGBTs com a justificativa de preconceito do público é grande. Para ficar nos casos mais recentes: a transexual Ana Girafa (Luis Salém) não beijou ninguém em Aquele Beijo (2012); Filipinho (Josafá Filho) foi para a Europa em Sangue Bom (2013) enquanto sua sexualidade era debatida no Brasil; Rafa (Rodolfo Valente) foi estudar balé em Londres para sair da trama de Malhação (2012). Isso sem contar casos lendários como a agressão sofrida pelo André Gonçalves por interpretar o homossexual Sandrinho, em A próxima vítima (1995).

Talvez o episódio mais reconhecido desta alegada pressão do público tenha sido em Torre de Babel (1998), quando o casal lesbian chic Rafaela (Christiane Torlone) e Leila (Silvia Pfeiffer), morreu na explosão de um shopping center, porque a sociedade dos cidadãos de bem não aguentava ver a felicidade daquelas sapas lindas. Aprendemos com aquele episódio o quanto o ódio pode tolher as representações sobre o Outro.

A história de Teresa e Estela tem tudo para se tornar um enredo que nos faça refletir sobre a pluralidade de identidades. Tem tudo para que possamos sentar com nossos pais e ensiná-los sobre diversidade. E tem tudo para ser, durante nove meses, um termômetro da força dos movimentos que se mobilizam por mais igualdade e daqueles que não respeitam a diversidade. Aguardemos. 

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