O luto lésbico e a palavra "companheira": sobre a morte de Susana de Moraes

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Susana morreu nesta terça-feira (27)
Foto: Reprodução/ Documentário Vinícius
Texto: Débora Fogliatto

A atriz e cineasta Susana de Moraes morreu nessa terça-feira, dia 27 de janeiro, que era filha de Vinícius de Moraes e esposa da cantora Adriana Calcanhotto. Nessa quinta-feira, diversos sites noticiavam o adeus de Adriana, que foi muito abalada ao funeral da mulher com quem viveu por mais de 25 anos. O luto da cantora foi retratado da mesma forma como é o de muitas celebridades: de forma invasiva, com fotografias sendo tiradas e perguntas sendo feitas enquanto ela chorava.

Mas, além dessas (infelizmente usuais) invasões de privacidade, outro aspecto da "cobertura" da morte de Susana chamou atenção: as formas como os jornais e sites se referiam ao relacionamento de Susana e Adriana. Embora tenham dado destaque para o fato de a cantora estar em luto, optaram por utilizar muitos eufemismos. Na maioria das notícias, embora Adriana seja a "protagonista", é interessante observar as palavras utilizadas:

No G1:

Adriana Calcanhotto se despede de Susana de Moraes em cremação -- Filha de Vinicius de Moraes, cineasta e artista morreu nesta terça. Companheira há 25 anos, Calcanhotto disse que perdeu o amor 'da vida'.

No EGO:
Abatida, Adriana Calcanhotto vai à cremação de Susana Moraes -- Cantora, que foi companheira da atriz por 26 anos, foi amparada por familiares ao deixar o Memorial do Carmo, nesta quarta, 28, no Rio.

Na Caras:

Adriana Calcanhotto chora a morte da companheira, Suzana de Moraes -- A atriz e realizadora, filha de Vinícius de Moraes, morreu esta terça-feira, 27 de janeiro, vítima de doença prolongada. 

No R7:

Morre no Rio Suzana de Moraes, filha de Vinícius de Moraes e companheira de Adriana Calcanhoto -- Atriz e cineasta de 74 anos lutava contra um câncer de útero 

O que se pode observar nas manchetes é a utilização sempre da mesma palavra para se referir à relação das duas: companheira. Quando os jornais falam do casamento das duas, surgem mais eufemismos:

"Suzana oficializou a relação com Adriana Calcanhotto em 2010, após mais 25 anos de vida em comum."

"...com quem viveu por mais de 25 anos". 

Neste quesito, pontos para o Yahoo, com a manchete e uma parte do texto:

Morre Suzana de Moraes, esposa de Adriana Calcanhotto
Suzana e Adriana eram casadas desde 2010, após 25 anos de relacionamento. Elas já dividiam o mesmo teto há vários anos quando decidiram oficializar a relação.

Embora alguns utilizem a palavra "casamento" para se referir à relação das duas, casadas desde 2010, na maioria dos portais de maior acesso não foi utilizada a palavra "esposa". Em algumas publicações de cidades menores ou com menor alcance, as notícias diferenciam e o uso de "esposa" e "casadas" é mais comum. Já a palavra "lésbica" ou "lésbicas" não foi encontrada em nenhuma das matérias pesquisadas.

Em muitas narrativas, para se referir a um casal de lésbicas ou de homens gays, utiliza-se a palavra "companheira" ou "companheiro". Poucas vezes a mesma definição é utilizada para casais heterossexuais, que são chamados de "namorado(a)" ou "esposa/mulher" e "marido". Essa escolha historicamente foi feita para "amenizar" o caráter da relação e, de certa forma, coloca os gays e lésbicas em um patamar inferior de relacionamento, como se seu casamento ou namoro não fosse tão legítimo quanto o das outras pessoas.

Ao mesmo tempo, recentemente alguns casais héteros, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, têm reivindicado o uso da palavra, como uma forma de retratar melhor o relacionamento do que "namorado/a". Claramente, para os portais de notícias, essa continua sendo uma definição ainda utilizada para pessoas LGBT. Mas será que no futuro veremos a palavra "companheiro/a" ser ressignificada e reivindicada pela população em geral, como a melhor definição para um relacionamento? Ainda não temos essa resposta, mas propomos a reflexão.

PS: Já a própria Adriana divulgou uma nota de partir o coração de qualquer um: "Uma grande mulher, inteligente, engraçada, culta, amiga dos amigos, que teve uma vida extraordinária, e que viveu cada segundo como nunca mais. Morreu de mãos dadas comigo. Foi-se o amor da minha vida".

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