OBSERVATÓRIO GEMIS V

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A jovem Tuğçe Albayrak foi espancada após salvar duas
meninas de assédio | Foto: Divulgação/ Facebook
Essa semana na mídia: o assassinato da jovem "mártir do machismo" na Alemanha; racismo em Ferguson e no Brasil, campanha no SUS e a reação do CFM; morte de Bolaños e a revisão de sua memória; héteros em marcha no Rio de Janeiro


FEMINICÍDIO 
– Duas notícias de feminicídio chamaram atenção essa semana. Na Alemanha, Tuğçe Albayrak, uma jovem de 22 anos, foi espancada até a morte por um adolescente, após salvar duas meninas que estavam sendo assediadas num banheiro do McDonald's. O caso, embora horrendo, teve uma repercussão enorme no país e internacionalmente. A menina era de descendência turca, o que não foi retratado de forma pejorativa nas reportagens encontradas. Ela foi considerada uma heroína e recebeu homenagens na Alemanha, o que foi ressaltado pela reportagem do jornal Extra. O Catraca Livre fez uma boa matéria linkando o acontecido aos altos índices de violência contra a mulher no Brasil.

E relacionado a isso está a morte de mais uma mulher brasileira assassinada pelo companheiro. Em menos de dez dias, duas jovens foram mortas em Coronel Vivida, no Paraná. A vítima do dia 23 tinha 28 anos e a do dia 30, 22 anos. O G1 fez uma reportagem sobre a morte mais recente, lembrando ao final outros casos de mulheres assassinadas, sem, no entanto, refletir sobre o machismo e os altos números de feminicídio na sociedade brasileira. 

A MODELO BRANCA NA CRACOLÂNDIA – A edição da revista Veja São Paulo que esteve nas bancas ao longo da semana passada trouxe em sua capa a história de Loemy Marques, uma ex-modelo branca de 24 anos, usuária de crack e vivendo em situação de rua – a “ex-modelo craqueira”, “modelo da cracolândia” paulista. Rapidamente, essa notícia se alastrou para outros veículos, com emissoras de TV oferecendo “um final feliz” para Loemy em troca de exclusividade por sua história e mesmo denúncias de abordagens coercitivas em relação à ex-modelo (segundo Márcia Pereira e Paulo Pacheco, no UOL, uma equipe do SBT chegou a colocar a modelo à força em um carro da emissora, desaparecendo com ela por horas). Por fim, o programa A Hora do Faro, na
Loemy foi retratada em diversos meios de comunicação
após ser capa da Veja 
Record, obteve a exclusividade do relato da ex-modelo
, narrando sua história prévia de abusos no passado, de envolvimento com a droga e a necessidade de se prostituir. Mas se por um lado a maioria dessas abordagens usou a história de Loemy simplesmente como um impactante case para “o drama do crack”, um artigo não assinado no blog Viver SP, do Terra, toca em um ponto relevante da história: Loemy destoa e chama a atenção por ser branca, ex-modelo, de olhos claros. “Será esse o motivo para uma mobilização para que a moça se recupere e volte a trabalhar como modelo? Até que ponto não é a elite branca e rica enxergando um igual em um lugar onde predominam negros e pobres? São questionamentos que devemos fazer.”, o texto se pergunta. Vale a leitura.

CAMPANHA CONTRA O RACISMO NO SUS – Impossível não falar em racismo depois da semana que passou – além de ser a última semana de novembro, mês dedicado à promoção da consciência negra e do reconhecimento do racismo que atravessa nossa sociedade, a semana passada foi movimentada por protestos contrários à absolvição do policial que matou o jovem negro Michael Brown, na pequena cidade de Ferguson, Missouri, EUA. E enquanto lá a revolta ferve, reconhecemos que se fôssemos para as ruas a cada vez que a polícia mata uma pessoa negra, revoltas como as de Ferguson seriam diárias no Brasil, como coloca Luiz Fernando Vianna na Folha de São Paulo (um reconhecimento que chegou ao The Guardian, nesse artigo de Jonathan Watts, disponível também em tradução para o português no blog de Thais Soares).

Trazendo a discussão da relação entre raça e estado para um tópico mais próximo dos estudos de gênero, temos também a campanha que circulou entre o dia 26 e o dia 30 para divulgar o Disque 136, mecanismo do governo para buscar dar acolhimento a denúncias de racismo no atendimento no SUS. Entre os dados apresentados para justificar a campanha, o Ministério da Saúde informa que 60% dos casos de mortalidade materna atingem mulheres negras, e que estas também recebem menos orientações relativas à amamentação do que as brancas, por exemplo. Dias depois, o Conselho Federal de Medicina (CFM) se manifestou contrariamente dizendo que racista é a campanha, que “desconsidera problemas estruturais que afetam toda a população”. Respostas conservadoras como esta só comprovam a necessidade dessa medida – já que o racismo é, também, um problema estrutural que atravessa a sociedade inteira, trazendo desigualdades de acesso a diversos serviços e oportunidades para a população negra.

A MORTE DOS ÍDOLOS – Com a notícia do falecimento de Roberto Bolaños, as redes sociais
Bolaños como Chaves: ídolo... e machista?
ficaram cheias de mensagens nostálgicas em despedida tanto do ator quanto de seus personagens dos seriados mexicanos Chaves e Chapolim, exibidos pelo SBT há 30 anos. Essa comoção, no entanto, trouxe à tona uma crítica desconhecida por muitos de seus fãs brasileiros: o fato de que apesar de interpretar um pobre menino de rua em uma história que se passa em uma vila e é tida como um clássico latino-americano, Bolaños era apoiador da direita mexicana e contrário ao aborto. Discussões, carregadas de defesa por quem admirava o artista e de indignação por quem conhecia seus posicionamentos políticos fora do seriado, trazem algumas reflexões interessantes: até que ponto a “nostalgia” nos impede de notar a heteronormatividade presente nas histórias de Chaves e Chapolin, onde, para completar, todos os personagens e atores são brancos? Como homens e mulheres são representados ali? Quais os limites da mensagem entre artista e personagem? Pensando politicamente, como pensar a frase “as pessoas boas devem amar seus inimigos”? Para quem se importa com refletir sobre essas desigualdades, talvez o conhecimento desse lado de Bolaños traga uma morte simbólica para seus personagens tão impactante quanto o falecimento do próprio artista.

MARCHA DO ORGULHO HÉTERO – A semana se encerrou com a Marcha do Orgulho Hétero na elitizada Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, passando por áreas onde se concentra o público LGBT na praia de Ipanema, falando em “heterofobia” (como se houvesse uma discriminação estrutural contra heterossexuais em algum âmbito da sociedade brasileira) e buscando defender a heterossexualidade “da extinção” (?!). O tamanho e impacto da marcha aparece bem em manchetes como esta do G1 Rio: “Marcha do Orgulho Hétero reúne cerca de 20 pessoas no Rio”. Torcemos para que manifestações como estas não se multipliquem, tampouco se avolumem; mais ainda, que não tenham o endosso do jornalismo para avançar suas agendas.

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