OBSERVATÓRIOS GEMIS III

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Essa semana na mídia: corredoras nuas em Porto Alegre, chacina de Belém e as violências raciais e de gênero e cor, cobertura do Enem e desigualdades raciais de gênero, racismo de Silvio Santos, novela Império e as diferentes identidades sexuais e de gênero


Texto: Carol Maia


Foto: Fernando Teixeira/Futura Press/AE

AS CORREDORAS NUAS DE PORTO ALEGRE – Em menos de duas semanas, a cidade de Porto Alegre foi o cenário para que três mulheres, em dias e lugares diferentes (a primeira no Parcão, a segunda na Terceira Perimetral, e a terceira no Centro Histórico), fossem flagradas correndo sem roupas. Até o momento, não foi identificado nenhum motivo em comum entre as três atletas. Fora isso, além das coincidências mais evidentes – serem mulheres, correndo e desafiando a exigência social de vestimentas em espaços públicos –, chama a atenção um discurso de patologização e medicalização dos comportamentos desviantes. A corredora do Centro não chegou a ser identificada, mas as duas primeiras, após detidas para a polícia, foram encaminhadas para emergências psiquiátricas (a primeira, segundo a família, tinha  chegou a ser internada), mesmo que a segunda corredora, ex-lutadora de MMA e descontente com a falta de incentivos aos atletas, tenha declarado correr nua como forma de protesto. Além desses, foi noticiado um outro caso de nudez pública em Porto Alegre na semana que passou – aparentemente, uma “barrigada” (termo em jornalistês para publicação de informação falsa e geralmente por falta de apuração), embora não tenha havido retratação de nenhum veículo. Sem conversar com a pessoa envolvida, a partir de características corporais visíveis  – quadris arredondados, seios, pênis –, algumas matérias arbitrariamente definiram a identidade dessa pessoa como travesti e, mais que isso, utilizando o artigo masculino “o travesti”. Pelo visto, além de apuração faltou empatia – ao falar de travestis e pessoas trans, deve-se sempre respeitar o gênero com que a pessoa se identifica, independente do que lhe foi designado no registro ao nascer. Travestis se identificam com o feminino, e em respeito a isso devemos falar “a travesti”! 

CHACINA EM BELÉM E A MORTALIDADE DE JOVENS NEGROS – Os números são controversos – a Secretaria de Segurança Pública do Pará admite dez mortos, outras estimativas apontam para até 35. Um post de um policial paraense e áudios sugerindo que as pessoas não saíssem de casa em alguns bairros da cidade permitem supor que a chacina ocorrida em bairros da periferia de Belém do Pará na madrugada de 4 para 5 de novembro, terça e quarta-feira da semana passada, é um triste exemplo para estatísticas divulgadas hoje, com o lançamento do Anuário da Violência, que aponta o alto grau de letalidade da polícia brasileira. Segundo esse relatório, somente no ano passado 2.112 pessoas foram assassinadas por policiais em serviço. Ainda no domingo, a Anistia Internacional lançou, no Rio de Janeiro, uma campanha que busca dar visibilidade à cor dos homicídios no Brasil: segundo dados do Mapa da Violência 2013, negros foram as vítimas de 77% dos assassinatos de pessoas com idades entre 15 e 29 ocorridos no país. Um outro enfoque, o de gênero, poderia ter sido dado para a leitura dessa chacina: o fato de que a mortalidade por causas externas vitima muito mais homens do que mulheres. Ainda de acordo com o Mapa da Violência, ainda que as taxas de homicídios femininos estejam aumentando mais do que as dos masculinos, atualmente 82% dos homicídios do país tiveram homens como vítimas. Na lista divulgada pelo IML/PA na semana passada, todas as vítimas identificadas do massacre de Belém tinham nomes masculinos.

GÊNERO E RAÇA NA COBERTURA DO ENEM – Na edição 2014 do Exame Nacional do Ensino Médio, cujas provas foram realizadas no último fim de semana, a face dos “atrasados” que não conseguiram chegar a tempo foi a de Amanda Alli, 19 anos. A foto de Guilherme Pinto para a Agência O Globo (fonte: Extra), com a jovem ao centro e rodeada de fotógrafos com suas enormes câmeras, mostra como o exercício do jornalismo pode ser invasivo com o sofrimento alheio. Mais do que isso, cabe refletir sobre como é emblemática a escolha do rosto de uma menina negra – a imagem de uma menina negra chorando do lado de fora dos portões da universidade – para ilustrar essa pauta, considerando-se as desigualdades de gênero e de raça, que afetam mais sensivelmente as mulheres negras. Além disso, possíveis interpretações desse tipo de matéria passam ao largo das diferenças de mobilidade urbana para quem vive nas periferias e no centro da cidade. Ponto para matérias como esta do UOL, que mesmo mencionando o caso de Amanda, optou por dar destaque à dificuldade que jovens mães enfrentam para conciliar estudos e maternidade. Além disso, essa edição do Enem foi a primeira a permitir o uso do nome social por pessoas trans, e destacamos enfoques positivos, como nessa matéria do G1, para a conquista e a importância desse direito, auxiliando a combater estereótipos associados à transexualidade.

SILVIO SANTOS E O CABELO “RUIM” – Ainda no tópico racismo e violência simbólica, o apresentador e proprietário do SBT Silvio Santos soltou um comentário racista acerca dos cabelos da atriz mirim Julia Olliver. Embora a menina de 11 anos já seja atriz e integre o elenco de Chiquititas, do próprio SBT, Silvio Santos deu a entender que o cabelo crespo de Julia seria um empecilho para seu sonho de ser atriz ou cantora quando adulta. Lamentável.


NOVELA COMO GANCHO PRA DISCUTIR IDENTIDADES – Se na semana passada criticamos uma cena de Império sobre aborto, nessa chamamos a atenção para uma possibilidade evocada pela diversidade presente entre os personagens dessa novela: a de suscitar debates sobre diferentes identidades e práticas. Elana Mazon, para o Diário Gaúcho, jornal popular do Rio Grande do Sul, aproveitou a figura de Xana para discutir o crossdressing, numa matéria bastante interessante. Apesar de ainda recorrer principalmente a fontes médicas para falar de sexualidade – uma constante no jornalismo –, e de não citar a maioria das personagens lésbicas nas novelas brasileiras, o texto de Elana acerta ao propor a reflexão e diferenciar identidade de gênero e orientação sexual e ao trazer até um miniglossário abordando algumas identidades sexuais que fogem à normatividade da heterossexualidade compulsória. Vale a pena a leitura – já que falamos em quebrar estereótipos, quem disse que jornal popular é só sensacionalismo?

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