OBSERVATÓRIO GEMIS II

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Essa semana na mídia: aborto, assédio nas ruas, casamentos em penitenciárias femininas, transexualidade na novela das sete

Texto: Carol Maia


CRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO – Um mês após a realização de marchas em todo o país reivindicando a legalização do aborto e seu tratamento como questão de saúde pública, a abordagem dessa questão na semana passada – no jornalismo e na ficção – foi marcado por posturas conservadoras e criminalizantes. Uma reportagem da Rádio Gaúcha, que acompanhou o funcionamento de uma clínica clandestina de aborto em Porto Alegre, foi além de criminalizar essa prática no campo do discurso: após a investigação jornalística, a clínica foi denunciada à Polícia Civil e seu fechamento fez parte da cobertura. O Gemis já se manifestou criticando essa pauta, e sua participação em uma lógica de criminalização de quem decide interromper a gravidez.

E se consideramos que a ficção – e, no caso brasileiro, as novelas em especial – também exerce um importante papel na circulação de significados e na interpretação da realidade social, também ganha importância uma discussão sobre aborto na novela Império, exibida na Rede Globo, às 21h. A possibilidade de interromper a gravidez de Du (Josie Pessoa) é discutida entre Lucas (Daniel Rocha) e Zé Alfredo (Alexandre Nego), respectivamente amigo/ficante e “sogro” da gestante, que decidem por manter a criança. Essa cena escancara uma concepção infelizmente comum – a de que as mulheres não têm voz na decisão sobre levar ou não uma gestação até o final – e, ao não contestá-la, auxilia a mantê-la naturalizada. Assista à cena clicando aqui.

CANTADAS” DE RUA – Na edição desta quinta-feira, o programa Amor e Sexo, da Rede Globo, abordou as “cantadas” de rua, uma prática que, como constatou a pesquisa Chega de Fiufiu, é vista como desagradável pela maioria das mulheres. Descaracterizando a possibilidade de assédio, o programa brincou com a expressão “cantada de pedreiro”, selecionando belos funcionários da construção civil para contarem das abordagens que realizam – algo criticável tanto pelo que implica em relação à classe (como se homens de classes mais elevadas não praticassem esse tipo de assédio), quanto por reforçar a visão de que “só é assédio quando o homem é feio”. Dessa forma, além de ignorar o caráter violento dessas abordagens – 81% das mulheres pesquisadas pela Chega de Fiufiu declararam já ter deixado de fazer alguma coisa para evitar assédios –, o tratamento dado pelo programa ajuda a naturalizar a prática das “cantadas” de rua como algo potencialmente interessante para as mulheres (a escritora Clara Averbuck publicou no site Lugar de Mulher uma boa crítica a essa edição do programa). Ironicamente, nessa mesma semana a questão das abordagens sexuais violentas também bombou nas redes sociais, com a divulgação de um vídeo de uma mulher andando pelas ruas de Nova York e recebendo mais de uma centena dessas “cantadas”.

Foto: Reprodução/ TV Record
CASAMENTO ENTRE DETENTAS – O jornalismo brasileiro também nos surpreendeu positivamente na semana passada. A notícia do casamento de Suzane Von Richtofen com outra detenta da penitenciária de Tremembé, Sandra Regina Gomes, foi bastante comentada não só pela fama das envolvidas – Richtofen ficou conhecida por planejar o assassinato de seus pais, e Sandra é ex-namorada de Elize Matsunaga, presa pela morte e esquartejamento do marido –, quanto porque as circunstâncias da união lembram o seriado estadunidense Orange is the new blackque aborda a vida dentro de uma prisão feminina de segurança mínima. Richtofen andava fora dos holofotes midiáticos, até a publicação de uma entrevista com ela na última edição de Marie Claire (que chegou às bancas na última quarta-feira) e a publicação, pela Folha de São Paulo, da notícia de seu casamento, que ocorreu em setembro. Chama a atenção a naturalidade com que a maioria dos veículos tratou o fato de ser uma união entre duas mulheres. Os textos dão mais destaque aos crimes que levaram as duas à prisão, à conduta de Richtofen na penitenciária, e à curiosidade acerca de sua nova parceira, menos conhecida do público. É interessante notar que, embora uma ou outra matéria aborde as “roupas de homem” de Sandra, apelidada de “Sandrão”, não ocorre uma inferência acerca da orientação sexual de nenhuma das duas, tampouco a deslegitimação das uniões entre pessoas do mesmo sexo dentro do sistema prisional.

Abordagens como essas são bastante positivas, ao evitar um olhar de estranhamento sobre uniões entre pessoas do mesmo sexo e por permitir uma leitura menos essencialista da sexualidade (admitindo que práticas e relacionamentos sexuais estão sujeitos ao contexto em que ocorrem). Além disso, embora o caso envolva uma penitenciária de segurança máxima e duas detentas brancas de classe média e alta, o que não é o caso da maioria das mulheres encarceradas no Brasil, essa cobertura permite abrir o debate sobre a diversidade sexual no interior dos presídios. Como exemplo de cobertura interessante do tema, citamos o Diário Gaúcho, que aproveitou o gancho para abordar as uniões entre detentas no presídio Madre Pelletier, em Porto Alegre, e aproveitamos para indicar a matéria de Gabriel Galli, vencedora do prêmio de Melhor Reportagem em Texto do 26º SET UNIVERSITÁRIO da PUCRS, sobre a ala trans e homossexual do Presídio Central, um presídio masculino em Porto Alegre.

DEBATE IMPORTANTE SOBRE TRANSEXUALIDADE – Também na última semana, a personagem Dorothy (Luis Miranda) deu uma aula sobre transexualidade na novela Geração Brasil. Ao longo de toda a trama, Dorothy exerceu uma importante função, que podemos classificar de didática, ao falar sobre o tema. Viúva de outro trans, Dorothy criou o filho e um dos principais personagens da trama, Brian Benson (Lázaro Ramos), cercado de amor e respeito pelos direitos humanos. Na última semana, a personagem decidiu participar de um programa de televisão e falar, novamente, sobre a vivência trans. Dorothy é a quinta personagem trans nas novelas da Rede Globo, em 44 anos de participação de LGBTs neste tipo de ficção seriada da televisão, o que mostra que estamos tendo avanços, mas ainda bem distante de uma pluralidade de identidades na televisão. Assista à cena clicando aqui.

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