OBSERVATÓRIO GEMIS IV

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Texto: Carol Maia, com Fernanda Nascimento e Nicolas Sales

Essa semana na mídia: criminalização do aborto; consciência negra (e, mais uma vez, Sexo e as Nêga); dia da lembrança trans; transexualidade no Profissão Repórter; reflexões sobre questões LGBT nos produtos midiáticos e como sobre opera o machismo nas redações jornalísticas. Não perde! 


CRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO – A lógica de criminalização do aborto continua operando explicitamente na sociedade brasileira, com a cumplicidade do jornalismo dos grandes veículos. Na semana passada, o ex-marido e uma amiga de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, desaparecida e morta em agosto em decorrência de um aborto clandestino, foram indiciados por participação na morte da auxiliar administrativa. Assim, se criminaliza e se culpa não só quem decide por interromper uma gravidez, mas também as pessoas que servem como rede de apoio no momento de encarar uma prática infelizmente ainda ilegal, que o Estado deveria ver como questão de saúde pública. Não só o estado, também o jornalismo – que acabam sendo cúmplices em casos como o da clínica fechada em Porto Alegre após investigação jornalística e posterior denúncia à polícia. Exemplos menos extremos, como essa matéria do jornal Extra – com construções frasais como “a polícia também enquadrou duas mulheres que chegaram a usufruir dos serviços prestados pela quadrilha” na recapitulação da história de Jandira – criminalizam o aborto através da linguagem. Na justiça e na mídia, mantém-se a lógica de culpabilizar as verdadeiras vítimas da proibição do aborto: quem acaba por falecer ou ter sequelas em função de abortos clandestinos realizados de forma insegura.

CONSCIÊNCIA NEGRA – Dia 20 de novembro é Dia da Consciência Negra e ao longo de todo o mais uma vez criticada por coletivos negros por apostar na associação entre negritude, hipersexualização e pobreza. Outra crítica, oportunizada pela semana do dia 20, atingiu diretamente a TV Globo. Em um evento nessa data em uma universidade em Brasília, Maria de Fátima da Silva, mãe de DG, ex-dançarino do programa Esquenta que foi assassinado em abril deste ano, fez críticas contundentes à apresentadora do programa, Regina Casé, e à produção que espetacularizou seu sofrimento. O vídeo do evento com essas críticas ganhou amplo alcance na Internet. “A mídia usou o tempo todo a imagem do meu filho”, disse a auxiliar de enfermagem, que acrescentou “em nenhum momento do programa vocês viram ela [Casé] falar de violência da polícia, e quando eu ia falar, eu era cortada”. Policiais são suspeitos de terem assassinado DG, e a alta mortalidade de jovens negros por homicídios é um tema urgente, que merece atenção e discussão constantes, não somente no dia 20 de novembro.
A mãe de DG | Foto: Reprodução
mês, atos, manifestos, atividades e produções culturais celebram a presença negra no Brasil, sua resistência, sua importância para nossa cultura, e denunciam o racismo ainda vigente em nossa sociedade. Na semana passada, além de reflexões que já se propunham a questionar a falta de representatividade da população negra na mídia, novamente o programa “Sexo e as Nêga”, da Rede Globo, voltou ao centro das discussões. Dessa vez, o estopim foi uma recente manifestação de apoio de Jean Wyllys à produção dirigida por Miguel Falabella, que foi

DIA DA LEMBRANÇA TRANS – Fora do Brasil (e recentemente também no país), o dia 20 de novembro é marcado pela celebração do “dia da lembrança trans”, em tradução livre (Transgender day of remembrance ou apenas tdor, em inglês). A data foi proposta para celebrar a memória das pessoas que perderam a vida por crimes motivados pela intolerância contra sua sexualidade ou identidade de gênero. O Brasil, segundo as estatísticas disponíveis, seria o país com o maior número de assassinatos com motivação homofóbica ou transfóbica. Na semana passada, o Estadão publicou uma boa matéria do jornalista Edgar Maciel, que aborda esses crimes e o aumento das denúncias de discriminação a LGBTs registradas pelo Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. A reportagem, num tom de denúncia a essas violências, foi a mais vendida pela Agência Estado no ano até agora e repercutiu em vários outros veículos. Contudo, a linguagem utilizada no texto, a começar pelo título, usa “gays” e “homossexuais” como se fossem sinônimos para “LGBTs”, universalizando essas identidades e levando a um apagamento das demais. E quando se fala em crimes de ódio, isso é ainda mais problemático, considerando a violência a que travestis e transexuais, em especial as mulheres, estão expostas. Notícias sobre assassinatos de travestis e transexuais (o blog Quem a homotransfobia matou hoje é uma boa fonte para análise dessas matérias) frequentemente tratam as vítimas como “homossexuais”, dando juntamente seu nome social feminino e o nome de registro, por exemplo. Esse tratamento – ou outro, mais comum, chamar travestis utilizando pronomes masculinos – é infelizmente bastante comum e é mais uma violência, dessa vez simbólica, não só sobre a memória das vítimas como às outras pessoas que se identificam com essas categorias identitárias.

Casal que foi entrevistado no Profissão Repórter |
 Foto: Reprodução/ TV Globo
PROFISSÃO REPÓRTER – Tivemos nessa semana uma boa exceção à impressão de que pessoas trans só aparecem no jornalismo na seção policial, quando uma travesti é assassinada. Na última terça (18), o tema do Profissão Repórter da Rede Globo foi a transexualidade. Caco Barcellos e a repórter Eliane Scardovelli se revezeram entre São Paulo e os estados do Maine e do Kansas nos Estados Unidos para abordar as vivências de pessoas trans nas mais diversas faixas etárias. De maneira geral, a abordagem foi positiva, com os repórteres demonstrando boa vontade em relação ao assunto, ainda que através da exposição de seu pouco conhecimento sobre a questão – como, por exemplo, quando Scardovelli desliza e pergunta o nome de registro de um dos entrevistados, que a corrige dizendo que essa pergunta não deve ser feita a uma pessoa trans, ou quando Barcellos diz que a discriminação contra pessoas trans é “homofobia”, sendo que o preconceito contra trans é chamado de “transfobia” para visibilizar sua especificidade. Destaca-se também a visibilidade sobre o tema, especialmente sobre os homens trans, uma identidade ainda menos conhecida e compreendida no país, e também a apresentação do termo “cisgênero”, usado em referência às pessoas confortáveis com a designação de gênero que receberam no nascimento (ou seja, pessoas que não são trans). Apesar disso, com seu foco prioritário nos procedimentos cirúrgicos e hormonais buscados por homens e mulheres trans, o programa deixou de aprofundar outras políticas públicas que a população trans tem como demanda, tais como a possibilidade de alteração do nome de registro (uma pauta urgente para melhorar o acesso à educação e ao trabalho formais), ou mesmo a alta taxa de assassinatos e outras agressões transfóbicas no país. Considerando a importância dessa visibilidade, torcemos para que esses pontos sejam melhor trabalhados em iniciativas futuras.


REFLEXÕES SOBRE JORNALISMO – Falando em mudanças no jornalismo, citamos aqui duas ocasiões que puderam suscitar reflexões sobre essa prática, seu meio, seus produtos e sua recepção. No sábado, o Gemis realizou sua primeira roda de conversa, em Porto Alegre. O evento, que pretendia refletir sobre as narrativas midiáticas sobre pessoas LGBT, dedicou uma atenção especial à realidade vivida pelas pessoas trans. Cerca de 30 pessoas compareceram ao espaço da Aldeia para participar da conversa com integrantes do Gemis e ouvir as falas de Luisa Stern, advogada e integrante do Gemis, da ONG Igualdade e do G8-Generalizando, e de Eric Seger, bolsista de iniciação científica do NUPSEX/UFRGS. A conversa foi bastante produtiva – inclusive, agradecemos aos participantes por, sem querer, ajudar a construir a nota acima.

Num clima bem menos agradável, sete jornalistas de Porto Alegre publicaram ontem uma carta aberta ao jornalismo alternativo, criticando o machismo das redações – mais especificamente, o que as sete enfrentaram no jornal alternativo Tabaré, por onde todas passaram (e onde uma ainda trabalha). Mais do que uma crítica ao modelo admirado a partir do Pasquim, elas denunciam uma cultura de desvalorização das capacidades intelectuais das mulheres e a maior valorização do trabalho dos homens – o que transcende o espaço das redações. Vale a leitura. E o Gemis se coloca como um parceiro nessa luta para repensar o jornalismo, da proposição da pauta à sua publicação, passando pelas condições de trabalho e as relações de gênero contidas aí. Contem conosco, gurias.
Roda de conversa do Gemis, na Aldeia | Foto: Samir Oliveira 

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