OBSERVATÓRIO GEMIS

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OBSERVATÓRIO GEMIS - 17/11


Texto: Carol Maia

Essa semana na mídia: abaixo-assinado contra o "professor de pegação" Julien Blanc e sua incitação ao estupro; audiência pública sobre estupros na Faculdade de Medicina da USP; transexualidade de Thammy Miranda e a cobertura da mídia; Botsuana tem sua primeira associação LGBT.

MOBILIZAÇÃO CONTRA JULIEN BLANC NO BRASIL

Foto: Mirror / montagem do Facebook e Youtube
Uma forte mobilização feminista online conseguiu chamar a atenção do Itamaraty ao longo da semana. Um abaixo-assinado, proposto pelo coletivo Rua Nua, pedia que Itamaraty e Polícia Federal proibissem a entrada de Julien Blanc no Brasil, como ocorreu no Japão e na Austrália. Blanc se intitula um “pick-up-artist” e viria ao país no final de janeiro para ministrar dois cursos, em Florianópolis e Rio de Janeiro. As técnicas ensinadas por ele estão sendo denunciadas internacionalmente por racismo e misoginia, por ensinar estratégias violentas e por incitar ao estupro. Imagens e vídeos das “táticas” propostas por ele – que vão de um “morde e assopra” que mina a autoestima de seu “alvo” a movimentos de empurrar a cabeça de mulheres na direção de seu pênis ou de estrangulá-las como caminho para um beijo – estão correndo a rede, e em menos de 24h a petição online no Brasil já havia alcançado mais de 200 mil assinaturas (hoje, se aproxima da casa dos 400 mil). Ainda não há posicionamento oficial do Itamaraty, mas diplomatas comentam de uma orientação interna negando entrada a Blanc no país e a Secretaria de Políticas para as mulheres manifestou “tolerância zero” a esse tipo de “curso”. Além da capacidade de mobilização e sensibilização para questões feministas a partir da internet, o episódio Julien Blanc mostra, no jornalismo, a capacidade para um posicionamento explícito no interior das notícias (por exemplo, essa matéria de Manuela Aquino para o MdeMulher / NOVA convoca quem estiver lendo a assinar a petição contra Blanc) e também para questionamentos mais profundos sobre a cultura de estupro no Brasil (como, por exemplo, o espaço que a BBC Brasil cedeu para um artigo de Nana Queiroz, ativista da Avaaz e fundadora do "Não mereço ser estuprada").

ESTUPROS NA FMUSP 

Falando em cultura de estupro, uma audiência pública realizada na quinta-feira, na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), trouxe à tona casos que a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) tenta há anos varrer para baixo do tapete. Além de casos de racismo e homofobia, foram relatadas ocorrências de estupros em festas da faculdade. Uma das denunciantes, que sofreu um estupro em 2011 e afirma não ser a única, afirma ter sido desestimulada a prosseguir com a denúncia para não manchar a reputação da instituição e conta não ter recebido nenhum apoio formal nem do grupo responsável pela organização das festas, a Atlética da FMUSP, nem da universidade. Pelo contrário: a direção da FMUSP inclusive tentou pressionar os deputados da Comissão de Direitos Humanos da ALESP para que essa audiência pública não acontecesse. A Ponte, site de notícias sobre segurança pública, justiça e direitos humanos, fez uma série de bastante fôlego sobre o caso, publicada em três partes na semana passada (a primeira parte relata os estupros, a segunda é uma entrevista com Paula de Figueiredo Silva, promotora de Justiça de Direitos Humanos e Inclusão Social do Ministério Público do Estado de São Paulo, e a terceira é o posicionamento do centro acadêmico da FMUSP). Além da culpabilização da vítima (e de seu descrédito), outra manifestação da cultura de estupro é a circulação de mensagens que colocam o corpo da mulher como algo para o consumo masculino – e nesse sentido, a FMUSP já havia sido alvo de outra denúncia no começo da semana, por uma letra de música racista e machista da bateria da faculdade em Ribeirão Preto.

THAMMY MIRANDA SE ASSUME TRANS

Filho da cantora Gretchen, Thammy Miranda contou sobre sua transição e modificações corporais em um programa da rádio FM O Dia, na terça-feira passada. A notícia, interessante para a visibilidade de homens trans no país, circulou em diversos sites de celebridades – que falharam ao reconhecer o gênero de Thammy. O Gemis fez uma análise a respeito dessa cobertura, veja aqui.

JUSTIÇA PERMITE GRUPO LGBT EM BOTSUANA

Após anos de tentativas, o grupo LEGABIBO (Lésbicas, Gays e Bissexuais de Botsuana) finalmente obteve na justiça, na semana passada, o direito de registrar oficialmente sua associação. Os ativistas pleiteavam esse registro desde 2004. Manter relações sexuais com pessoas do mesmo sexo é crime nesse país africano, assim como na maioria dos países do continente (em alguns deles, somente a homossexualidade masculina é punida). A mídia brasileira infelizmente passou ao largo dessa notícia.

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