EM RÁDIO, THAMMY MIRANDA SE ASSUME TRANS - E SITES DE FOFOCA DERRAPAM NA COBERTURA

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Por Carol Maia

Foto: Rodolfo Viana/FM O Dia / Divulgação
Thammy Miranda participou da edição de ontem (12) do programa "De Cara", da rádio carioca FM O DIA. Quando lhe questionaram se era verdadeiro o boato de que havia retirado os seios, Miranda admitiu estar em processo de mudanças corporais transexualizadoras para transformar seu corpo "no corpo com que gostaria de ter nascido". Respondendo à entrevista, ele comentou sobre seu uso de hormônios com acompanhamento médico, sobre as cirurgias que pretende fazer e que sonha em ir à praia sem camisa. Esclareceu também que não pretende mudar de nome por preferir "construir uma imagem", que está se pronunciando sobre o assunto por se considerar uma pessoa pública e que falar é melhor do que deixar especularem. E, mais importante, que tomou essa decisão "para ser quem quer ser".

As notícias encontradas em sites de notícias sobre celebridades para elaborar esse post não traziam nenhuma declaração adicional de Thammy, apenas trechos da entrevista na rádio. Mas a coincidência mais marcante é o fato de *todas* elas tratarem Thammy no feminino, eventualmente cometendo o mesmo equívoco ao citar outros homens trans famosos, como Chaz Bono, filho da cantora Cher (lembramos: o correto é usar o gênero com que a pessoa se identifica no momento, independente de como ela foi registrada). Algumas matérias indicavam alguma confusão entre essa "saída do armário" trans e o fato de que Thammy havia adotado publicamente a identidade de lésbica, em 2006. Outras repetiram a mesma abordagem daquela época, com o resgate de fotos de sua época como modelo e seus ensaios para revistas masculinas, quando ainda buscava trilhar os caminhos da mãe, a cantora Gretchen.

Nota-se também um foco nas questões corporais e médicas da transformação vivida por Thammy. Muitos títulos dessas matérias estão no futuro, dizendo que Thammy "vai mudar de sexo" (sendo que ao comentar sobre sua utilização de testosterona, ele conta que já não menstrua há dois anos). Além do que a expressão "mudança de sexo" implica, esse uso do futuro sugere uma certa hierarquização entre identificação, hormonização e cirurgias - chegando a colocar a cirurgia transgenitalizadora como "ponto final" de um processo de transexualização. A compreensão binária e cissexista* do corpo, do gênero e da sexualidade transparece em construções frasais como "seu objetivo é ser totalmente masculina, exceto na região genital", como se a construção da masculinidade (de Thammy enquanto pessoa, ou de partes de seu corpo isoladamente) dependesse necessariamente de intervenções cirúrgicas. Na comparação, matérias como esta do jornalista Neto Lucon, que não só reflete mais frequentemente sobre transexualidade em seu trabalho como inclusive já tinha conhecimento de boatos acerca de Thammy, parecem contar uma história totalmente diferente...

Apesar desse tratamento, achamos positiva a visibilidade que Thammy pode trazer para a transexualidade masculina. Esperamos que ele seja feliz sendo quem sente que é! E torcemos para que possamos aproveitar esse gancho para construir, no jornalismo, compreensões mais adequadas em relação à transexualidade.



* Cissexismo é o tratamento diferencial dado a pessoas transgêneras (aquelas que recusam o gênero que lhes foi atribuído ao nascimento) e pessoas cisgêneras (aquelas que estão alinhadas ao gênero que lhes foi atribuído), com privilégio para estas, baseado na noção de que a morfologia humana se divide em dois tipos e que a cada um destes corresponde um gênero.

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