Precisamos falar sobre aborto... E sobre os discursos midiáticos acerca dele

Sem Comentarios

Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil
Texto: Débora Fogliatto

Por ano, cerca de um milhão de mulheres realizam abortos no Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde. 
Uma em cada sete brasileiras entre 18 e 29 já abortou, segundo o IBGE.  Abortos inseguros e mal-sucedidos são a quinta causa de morte materna, conforme o DataSUS de 2013. Então por que os discursos da mídia continuam tratando o aborto como questão de polícia, e não de saúde pública? 
O aborto é crime no Brasil (exceto em casos de estupro, risco de vida para a mãe ou fetos anencéfalos) e podem ser penalizadas tanto as mulheres que optarem por fazê-lo quanto qualquer pessoa que as ajude.  
Já foi repetidamente comprovado e analisado que as mulheres não deixam de fazer abortos devido à proibição. Pelo contrário, surgem clínicas clandestinas que fazem com que o procedimento -- que na verdade é bastante simples -- seja realizado de forma insegura e que frequentemente gera mortes, como duas recentemente no Rio de Janeiro.
Mesmo assim, o jornalismo continua trabalhando na lógica punitivista e de encarceramento que opera nas polícias, ao invés de se propor a ser um instrumento de reflexão e análise da situação no país. Em uma rápida pesquisa no Google ao se procurar apenas por notícias, a maior parte delas são de desmantelamento de "quadrilhas" de aborto, relatos policiais casuais sobre o fechamento de clínicas clandestinas. 
Uma dessas matérias foi a feita pela Rádio Gaúcha no dia 29, que além de relatar a ação policial, foi um agente direto dela: os repórteres investigaram por cinco meses a clínica e a delataram à polícia. Primeiramente, é preciso lembrar que o jornalismo, com isso, "produziu" a notícia, visto que ela foi feita não com o viés de entender o funcionamento da clínica ou criar formas de compreensão dos motivos que levam mulheres a fazer o aborto, mas apenas serviu para entregar à polícia e depois publicar matérias relatando o fechamento. No texto publicado no site, a palavra "quadrilha" foi usada seis vezes, a palavra "crime" duas vezes, "organização criminosa" uma vez. 
Em fotos divulgadas, mulheres que aguardavam atendimento apareciam deitadas no chão olhando para baixo. Pode-se entender que elas estavam sentadas no sofá que também aparece e, com a ação policial, pediu-se que deitassem no chão. Para não aparecer nas fotos, esconderam os rostos. Essa foto foi muito representativa da forma como as mulheres são criminalizadas, obrigadas a esconder seus rostos, temendo ser identificadas por terem escolhido abortar. De acordo com uma matéria do G1, uma mulher que realizava o procedimento foi presa. 
A partir daí, diversos veículos fizeram matérias sobre o acontecido, todas sem problematização dos fatos. A clínica realizava cinco abortos por dia por cerca de R$ 5 mil. Nenhuma matéria questiona o fato de cinco mulheres por dia se esforçarem para gastar tal quantia, nenhuma matéria problematiza o nível de desespero em que elas precisam se encontrar. Tudo é feito em conjunto com a polícia, seguindo a lógica de que o aborto é crime e fechar a clínica é o correto a se fazer. No G1, uma matéria chega a colocar a palavra "organizada" entre aspas ao se referir ao funcionamento do local, como se uma clínica de aborto não pudesse ser de fato organizada. 
Infelizmente, isso não é a exceção. Enquanto mulheres estão morrendo de abortos clandestinos, esforçando-se para pagar preços absurdos, sentindo-se criminosas por ter que fazer esquemas elaborados para chegar às clínicas, o jornalismo brasileiro segue sem questionar e problematizar. Além de lutar pela legalização, as jornalistas interessadas nas batalhas das mulheres devem, cada vez mais, buscar incluir a discussão em suas redações, em suas universidades, para que a mídia se torne realmente um canal de informação, de debate público e reflexão, e não apenas um panfleto de relatórios policiais. 
Ainda há, por sorte, algumas tentativas de resistência em núcleos específicos: nos veículos independentes e na mídia alternativa, há matérias que buscam traçar um panorama e problematizar as questões do aborto, como a realizada pelo jornal Tabaré em 2013. A revista TPM, que publica matérias com uma perspectiva feminista e busca lançar um novo olhar às questões femininas, lançou a campanha #PrecisamosFalarSobreAborto. Precisamos mesmo. E precisamos, urgentemente, falar sobre jornalismo e sua relação com a criminalização do aborto. 

back to top