Por uma sociedade e por uma mídia plurais: um beijo para as travestis

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Texto: Felipe Viero

Em face de uma lógica cis/heterossexista e heteronormativa, o sexo biológico (reduzido à existência de uma vagina e de um pênis e tomado como algo naturalmente dado e estabelecido) pressuporia um gênero (simplificado ao par feminino/masculino) e, ambos, garantiriam a constituição de um desejo univocamente dirigido aos seus opostos, levando corpos plurais a formas singulares de expressão e de vivências.

Indo de encontro a isso, e com base das nas reflexões de Judith Butler, podemos recuperar a expressão “gêneros inteligíveis” a fim de refletir sobre aqueles corpos que, estando submetidos a esses padrões, teriam peso, bem como sobre aqueles que, desviando desses caminhos pré-traçados, seriam postos à margem.

A partir da pirâmide erótica de Gayle Rubin, igualmente, é possível observar como casais heterossexuais, maritais e reprodutivos estarão, isolados, no topo de um sistema hierárquico, enquanto os demais, conforme mais se afastam desse “ideal”, tendem a ser colocados abaixo do regime da respeitabilidade.

É pela condição de corpos com “menos peso”, de vidas cujo pranto seria interditado (nos termos de Butler), que se percebe a ocorrência de crimes homotransfóbicos, responsáveis, apenas no ano passado, pela morte de 312 indivíduos LGBTTTs no Brasil (um assassinato a cada 28 horas) e, para além da morte física, pelas formas de enquadramento midiático recorrentemente percebidas no que tange esse tipo de crime (limitadas, preconceituosas, rasas) e por mais violência simbólica.

No que tange, igualmente, à representação de homossexuais, travestis e transexuais na mídia em geral também há ainda muito para se andar se tivermos (e temos) como meta questões como pluralidade e diversidade. Atualmente, no Brasil, por exemplo, há apenas uma revista voltada ao público homossexual (e masculino), que expõe/constrói homens muito específicos. Sobre a presença de indivíduos LGBTTTs em telenovelas, seguramente ocorreram mudanças. Apesar disso, mesmo em um cenário de beijos gay e lésbico (nas novelas Amor à vida e Em Família), é cabível perguntar: Essa visibilidade garantiria, efetivamente, um avanço no que tange vivências múltiplas de gênero e de sexualidade ou, nesses casos mencionados, se restringe toda uma sigla a uma homoafetividade tolerável? Onde estão, para além das páginas policiais e dos programas de humor (em tom de chacota), as travestis e as/os transexuais?

Como meios de resistência, existem brechas que se abrem na mídia dominante, veículos contra-hegemônicos, organizações e grupos que trabalham em prol da população LGBTTT e formas abrangentes de manifestações artísticas que dão voz àqueles que até então eram calados. E é nesse sentido, de pensar sobre sentidos que se movimentam, se ampliam e se modificam que, retomando Mc Xuxú, terminamos mandando um beijo para as travestis e, atentos à mídia como seguiremos, com esperança de, cada vez mais, e de modo crescente, observarmos uma mídia mais consciente e responsável no que se refere às questões de gênero e de sexualidade, bem como uma população menos preconceituosa e mais capaz de conviver com as diferenças que a constituem e a enriquecem.






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