Mayang Prasetyo: mais uma vítima de violência morta pelo próprio parceiro

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Nem seu trabalho nem sua identidade de gênero mataram Mayang Prasetyo: ela morreu porque um homem se sentiu no direito de matá-la.

Texto original: Amy Gray em The Guardian
Tradução: Samir Oliveira
Revisão: Débora Fogliatto

Vítima de assassinato Mayang Prasetyo, cujo principal suspeito de ter cometido o crime é seu namorado Marcus Volke. Foto: AAP/Facebook

Um homem assassinou sua companheira e, em seguida, cometeu suicídio. Esses são os fatos mais simples que podem ser ditos a respeito de uma tragédia que é, ao mesmo tempo, bastante frequente e facilmente esquecida.

Mas o recente episódio de assassinato e suicídio em Brisbane, na Austrália, é mais notável do que outros pelo drama que oferece a um público cansado, acostumado e indiferente em relação à violência que as mulheres sofrem. Vários veículos de comunicação foram impressionantemente rápidos em noticiar a tragédia e depois foram diminuindo completamente a intensidade da cobertura durante o desenrolar da história.

A narrativa construída em torno do caso, já completamente sem rumo diante de uma nunca confirmada sugestão de canibalismo, deu uma virada ainda mais perversa quando jornalistas centraram suas atenções na vítima, Mayang Prasetyo, descrevendo-a como uma “prostituta transgênera” e enfatizando suas raízes indonésias - tudo isso antes de vasculhar seus perfis nas redes sociais em busca de fotos. O que diz sobre a nossa cultura que Prasetyo tenha sido definida principalmente como uma prostituta, uma palavra considerada por muitas trabalhadoras sexuais como um insulto?

Talvez esses fatores fossem irrelevantes: saber se Prasetyo foi vítima de um crime de ódio relacionado à sua profissão ou ao seu passado, às suas raízes. Mas não foi nem uma coisa, nem outra. Mayang morreu por causa de outro crime de ódio: ela era uma mulher em um relacionamento com um homem que se sentiu no direito de matá-la.

Deveríamos nos questionar sobre o direito que a mídia tem de publicar fotos dela somente de biquini. Não apenas os jornalistas não se contentaram em vasculhar os perfis da vítima nas redes sociais em busca de fotos, como escolheram a imagem com mais apelo sexual para reproduzir. Havia várias outras fotos, em que Prasetyo estava vestida e que a retratavam como a mulher feliz que os próprios vizinhos descreveram. Mas, é claro, essas fotos não eram suficientemente apelativas.

É neste ponto que a mídia deve considerar o uso que faz da linguagem - a linguagem que descreve de várias formas uma vítima de assassinato como “mulher-macho”, “prostituta” ou “mulher-de-aluguel”. Cada vez que nós assinalamos as pessoas pelo que as tornam “diferentes”, nós efetivamente removemos elas de nossa comunidade e as reduzimos como seres humanos.

É esse uso da linguagem, que tenta colocar a vítima como “o outro”, que acaba formando sentido na mente dos leitores. Diga às pessoas, de forma repetida, que uma vítima de assassinato era uma trabalhadora sexual ou uma pessoa transgênero e, em seguida, os leitores começarão a associar esses dois fatores ao crime cometido. Quando nós apresentamos uma pessoa como algo  diferente, que não se encaixa na nossa visão conservadora, nós começamos a presumir que essa pessoa fracassou ao tentar ser como a maioria e que, talvez, isso tenha contribuído para sua morte. A essa percepção, segue a falácia de que são o trabalho ou a identidade de gênero o que matam. Mas nem o trabalho, nem a identidade de gênero mataram Prasetyo. Ela não escolheu ser assassinada - um homem fez essa escolha.

Da mesma forma, a maneira como a mídia retrata o acusado de cometer um crime quando se trata de um assassinato seguido de um suicídio é igualmente perturbadora. As notícias têm retratado o acusado pelo assassinato, Marcus Volke, como “um conhecido oponente da violência contra as mulheres”.

É muito simplista apresentar suas atividades nas reses sociais como se fossem referências do seu caráter - e é profundamente desrespeitoso fazer isso de forma irônica. Trata-se de um homem que supostamente escolheu matar uma mulher e, então, se matar após ser encurralado pela polícia. Nada mais, nada menos.

Ainda assim, este artigo recorda de coberturas anteriores de casos relacionados a assassinatos seguidos de suicídio, onde os assassinos eram descritos como pessoas que enfrentavam um grande estresse - uma vida rural isolada, pais doentes, problemas financeiros - e, então, essas coberturas oferecem uma informação em destaque sobre prevenção a suicídios (trata-se de um requisito para se publicar matérias sobre suicídios na Austrália, por exemplo), mas nunca informam em destaque a violência doméstica que as mulheres desses assassinos sofreram (o que não é exigido pelo Conselho de Imprensa da Austrália, e podemos nos questionar sobre o porquê de os editores não fazerem esforços para mudar essa situação).

Essa omissão é particularmente opressora: temos um destaque dado à prevenção de suicídios, mas não à violência doméstica, apesar do fato de que as reportagens sobre esses crimes, na verdade, afetam milhares de mulheres em toda a Austrália que são vítimas de violência doméstica.

Ao fim e ao cabo, outra mulher foi morta por um homem. É mais uma estatística mostrando o terror real que as mulheres enfrentam: o fato de que suas casas são, estatisticamente, um dos lugares mais perigosos para estarem. E, ainda assim, a mídia continua, de forma provocativa, a vitimar as mulheres, inclusive durante a morte.

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