Jornal O Sul publica carta do Gemis como direito de resposta a texto de colunista

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Na última segunda-feira (20), o Gemis divulgou em seu Facebook uma nota de repúdio à coluna "A liberdade do homem nu", escrita pelo colunista Wanderley Soares, do jornal O Sul. O texto se referia a um estupro acontecido em Porto Alegre e ao fato de um dos suspeitos do crime, pego em flagrante, responder em liberdade.

Após a publicação, a integrante do Gemis Mariani Ferreira entregou a carta à direção do jornal, que afirmou que tem como princípio ouvir todos os lados. Nesta quinta-feira (23), O Sul publicou como direito de resposta a carta elaborada pelo Gemis.

Confira a íntegra da nota do Gemis:

NOTA DE REPÚDIO

Nota de repúdio às declarações do colunista Wanderley Soares, publicadas no jornal O Sul, em 17 de outubro de 2014. 


Como grupo que se propõe a pensar questões de gênero, de mídia e de sexualidade, não é possível nos furtarmos de, publicamente, manifestarmos nosso repúdio às declarações do colunista do jornal O Sul, Wanderley Soares, feitas em sua coluna veiculada no dia 17 de outubro.

No texto "A liberdade do homem nu", cujo tema seria o caso de estupro, ocorrido no último dia 12, em Porto Alegre, o senhor Wanderley afirma que um homem nu, em frente a uma mulher jogada no chão, estando essa em estado de choque, seria algo que geraria múltiplas interpretações, dentre as quais, conforme afirma, estaria a de que a vítima poderia ser a responsável pela situação. Bem, senhor Wanderley, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para Mulheres que englobam todos os casos de abuso sexual previstos na Lei do Estupro.

Indo de encontro às declarações do magistrado (esse, sobre o qual o senhor sugere que façamos um exercício de empatia, nos colocando em seu lugar, de ter de deliberar sobre a liberdade condicional ou não dos sujeitos presos em flagrante) não consideramos esse episódio um fato isolado. Em contrapartida, achamos prudente pensar a questão sob o ponto de vista da vítima, agredida fisicamente por aqueles indivíduos e, agora, simbolicamente agredida pelo senhor, que insinua que ela poderia (sob certas interpretações) ser responsável pelo crime que, contra ela, foi cometido. A violação de um corpo ultrapassa, em muito, a presença de elementos como resquícios de esperma, um pouco de sangue ou alguns hematomas, tal qual o senhor enumera. E o sofrimento e as marcas que ficam são, seguramente, muito mais permanentes do que isso.

Seu texto é ilustrativo dos discursos machistas, misóginos e preconceituosos que contaminam nossa cultura. Infelizmente, senhor Wanderley, sua forma de pensar sobre esse lamentável e revoltante episódio não é um fato isolado. Igualmente, por outro lado, muitas outras pessoas encaram o tema para além dessa visão limitada que o senhor expôs, de modo tão enfático, em sua coluna de opinião. Se o senhor propõe que pensemos sobre a liberdade daquele homem nu, lhe propomos (e propomos aos seus leitores) que pensem sobre a liberdade daquela e de todas as outras mulheres e sujeitos que, continuamente, passam pela terrível experiência do estupro.


No texto "A liberdade do homem nu", cujo tema seria o caso de estupro, ocorrido no último dia 12, em Porto Alegre, o senhor Wanderley afirma que um homem nu, em frente a uma mulher jogada no chão, estando essa em estado de choque, seria algo que geraria múltiplas interpretações, dentre as quais, conforme afirma, estaria a de que a vítima poderia ser a responsável pela situação. Bem, senhor Wanderley, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para Mulheres que englobam todos os casos de abuso sexual previstos na Lei do Estupro. 

Indo de encontro às declarações do magistrado (esse, sobre o qual o senhor sugere que façamos um exercício de empatia, nos colocando em seu lugar, de ter de deliberar sobre a liberdade condicional ou não dos sujeitos presos em flagrante) não consideramos esse episódio um fato isolado. Em contrapartida, achamos prudente pensar a questão sob o ponto de vista da vítima, agredida fisicamente por aqueles indivíduos e, agora, simbolicamente agredida pelo senhor, que insinua que ela poderia (sob certas interpretações) ser responsável pelo crime que, contra ela, foi cometido. A violação de um corpo ultrapassa, em muito, a presença de elementos como resquícios de esperma, um pouco de sangue ou alguns hematomas, tal qual o senhor enumera. E o sofrimento e as marcas que ficam são, seguramente, muito mais permanentes do que isso. 

Seu texto é ilustrativo dos discursos machistas, misóginos e preconceituosos que contaminam nossa cultura. Infelizmente, senhor Wanderley, sua forma de pensar sobre esse lamentável e revoltante episódio não é um fato isolado. Igualmente, por outro lado, muitas outras pessoas encaram o tema para além dessa visão limitada que o senhor expôs, de modo tão enfático, em sua coluna de opinião. Se o senhor propõe que pensemos sobre a liberdade daquele homem nu, lhe propomos (e propomos aos seus leitores) que pensem sobre a liberdade daquela e de todas as outras mulheres e sujeitos que, continuamente, passam pela terrível experiência do estupro.


Segue, abaixo, a carta do Gemis publicada no jornal (clique para ampliar):



Abaixo, o texto de Wanderley Soares (clique para ampliar):


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