Escutem as trabalhadoras do sexo - vocês perceberão que temos muito a dizer sobre direitos trabalhistas

Sem Comentarios

­


Nós, trabalhadoras do sexo, praticamos nossa profissão porque temos necessidades e desejos na vida: comida, abrigo e gastos cotidianos que nos afetam diariamente. Além disso, somos parte integrante das comunidades em que trabalhamos e vivemos.

Texto original: Jane Green em The Guardian
Tradução: Natália Ledur Alles
Revisão: Nicolas Sales

Em Victoria (Austrália) o trabalho sexual nas ruas continua criminalizado e submetido a leis reguladoras. Foto:Yoav Lemmer/AFP/Getty


Foi com um sentimento crescente de frustração e desespero que li o artigo “Viver em St. Kilda (Escócia) abriu meus olhos ao mundo da prostituição. Eu tenho sorte – eu posso sair”. Frustração e desespero porque, como trabalhadora do sexo, antiga trabalhadora da prostituição de rua e advogada de trabalhadoras do sexo, com frequência vejo que gente alheia ao nosso mundo fala de nossas vidas de forma depreciativa e estigmatizante. Isto ocorre com tanta freqüência que até existe um termo para denominar esse falar sobre nós: pornô piedoso (pity porn).


O termo pornô piedoso descreve as trabalhadoras do sexo como vítimas sem agência, como se fôssemos incapazes de termos voz própria e estivéssemos em constante necessidade de resgate ou reabilitação. Essa é uma visão que fundamentalmente nega a autonomia que temos sobre nossos próprios corpos, busca sabotar as batalhas dos trabalhadores e trabalhadoras do sexo pelo reconhecimento de seus direitos humanos e situa as vozes de pessoas que não são trabalhadores e trabalhadoras do sexo em um local mais importante nos diálogos sobre nossas vidas e nossos direitos. Isso é inaceitável.

Trabalhadoras do sexo, assim como outros trabalhadores, trabalham porque possuem necessidades e desejos na vida: comida, abrigo, os custos associados ao cotidiano – e sim, algumas vezes drogas, embora obter drogas não seja um motivo comum para se estar nessa área de trabalho. Nós somos membros das comunidades em que trabalhamos e vivemos. Profissionais do sexo que trabalham nas ruas muitas vezes são a parte mais visível da comunidade das trabalhadoras e trabalhadores do sexo e enfrentam questões específicas em termos de atenção pública e midiática.

Em Victoria, Austrália, o trabalho sexual com base nas ruas continua sendo criminalizado e o trabalho sexual em geral é regulado por um regime de licenças. No cotidiano, isto significa que nós não somos tratadas como o são trabalhadores de outras indústrias. Nós estamos sujeitas a um complexo e muitas vezes confuso sistema burocrático de regras que definem como, onde e quando podemos trabalhar. Quando não conseguimos cumprir essas regras, se formos vítimas de atos de violência, ao buscarmos a ajuda de serviços públicos (incluindo a polícia) sabemos que corremos o risco de sermos penalizadas por não cumprir as leis reguladoras.

À luz de tudo isto, é particularmente desanimador estar lendo o jornal e encontrar um texto opinativo que faz generalizações sobre nós, sendo que a interação do autor com trabalhadores e trabalhadoras do sexo aparentemente se resume a alguns “bom dia”.

Mas se você realmente quiser saber sobre a vida de trabalhadores e trabalhadoras do sexo, eis uma dica: nos escutem, nós temos muito a dizer. Nós não estamos caladas e nós lutamos diariamente por melhores direitos de trabalho para nossa comunidade. Apreciamos as pessoas aliadas que nos escutam e não tratam de falar em nosso nome. Aliados respeitam nossa autonomia e não pressupõe coisas sobre nós, mas tentam descobrir o mundo das trabalhadoras do sexo a partir de nós.

Mais importante: se você escreve sobre nós, entenda que quando você escreve sobre o ambiente em que trabalhamos como um “constante tamborilar de miséria, dia e noite, noite e dia”, e nos descreve usando frases como “suas faces ainda são macias, mas seus olhos estão endurecidos”, isso nos estigmatiza e nos desumaniza. Se você está realmente preocupado com a violência em nossas vidas, se você se importa com a nossa comunidade ou quer nos apoiar, os elementos-chave a serem enfrentados são o estigma, a discriminação, as leis que criminalizam nosso trabalho e nos impedem de acessar nossos direitos humanos e trabalhistas como outros membros da sociedade, e essas mesmas leis que dificultam nosso acesso à justiça quando somos vítimas de violência.

A assistência dada por aliados aos trabalhadores e trabalhadoras do sexo nestas questões é solidária, mas escrever pornô piedoso quando fala de nós não é nos apoiar.

** 
Jane Green é trabalhadora do sexo, membro do Coletivo Vixen (Associação de Trabalhadores do Sexo de Victoria) e tesoureira da Scarlet Alliance (Associação de Trabalhadores do Sexo da Austrália). Juntamente com outras trabalhadoras do sexo, Jane luta pela completa descriminalização do trabalho sexual na Austrália.

back to top