BEATRIZ PRECIADO: A ESQUERDA É TÃO CONSERVADORA QUANTO A DIREITA SOBRE BIOPOLÍTICA, CORPO E SEXUALIDADES

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Tradução: Carol Maia
Fotos: Jornal  Clarín


“Pensei em mudar de sexo, mas para que sexo?; pensei em mudar de nome, mas para qual nome? Prefiro uma multiplicidade de identidades móveis”, declara Preciado, pensadora de referência da “teoria queer”. Neste diálogo, seus conceitos sobre gênero, poder e normatividade.

"A esquerda é tão conservadora quanto a direita sobre biopolítica, corpo e sexualidades"
É quase meia-noite e na discoteca Cabaret Berlin de Barcelona, tantas vezes fechada, a antológica rainha do underground nova-iorquino Lydia Lunch se prepara para tocar com sua banda. Em meio ao DJ set da escritora Virginie Despentes (diretora da controversa película Fóllame) e à fumaça (aqui não é proibido fumar em espaços públicos), a filósofa espanhola Beatriz Preciado, por sua vez namorada de Despentes e amiga pessoal de Lunch, se prepara para dar uma entrevista à Ñ (caderno do Clarín).

Preciado é indiscutivelmente a voz de maior destaque na língua espanhola dentro dessa ótica incatalogável chamada “teoria queer”: forma reapropriada do que originalmente era um insulto (queer em inglês era um adjetivo qualificativo de caráter pejorativo) e espécie de  devir epistemológico que aglomera todas aquelas expressões de gênero mais radicais em torno das políticas anti-identitárias que parecem acusar o mundo a partir da união entre arte e corpo.

Figura inconfundível da cena noturna-acadêmica de Barcelona, apesar de ser alta demais para ter nascido na Espanha, seu cuidadoso look andrógino está em harmonia com essa cidade onde, grosso modo, a maioria das mulheres tem cabelos curtos. Preciado, sem ares de estrelismo, é autora do ensaio Pornotopía. Arquitectura y sexualidad en "Playboy" durante la Guerra Fría e recentemente foi finalista do prêmio Anagrama de ensaio com essa obra, em que usa a popular revista de Hugh Hefner como arqueologia da produção “de afetos que garante o capitalismo” e como objeto de crítica cultural.

Estas são algumas das novas modalidades às quais a teoria se aplica, não tanto como um conjunto abstrato de prescrições acadêmicas, e sim como forma de articular possibilidades. Mas como ficará claro nessa conversa, Beatriz Preciado é um personagem conceitual, no dizer de Deleuze e Guattari em O que é a filosofia?: quem enuncia as respostas se fará chamar por “Beto”, e responderá sempre no masculino, em clara referência à ideia butleriana de que o indivíduo se torna indefinidamente de um gênero, que nunca chega a se cristalizar em substância ontológica.

Beatriz, Beto, B.P., em seu livro Testo Yonki, se considera um personagem conceitual?

Minha postura vem de uma resistência muito grande às imposições de gênero. Nunca quis me definir como mulher. Gosto de brincar dentro dessa ambiguidade.  Pensei em mudar de sexo, mas para que sexo?; pensei em mudar de nome, mas para qual nome? Prefiro uma multiplicidade de identidades móveis. Sigo utilizando Beatriz preciado como assinatura, porque a posição de “escritora-mulher-lésbica” é menos habitual do que uma posição masculina no discurso tradicional da filosofia.

Por que essa resistência?

Não há um porquê antes de um como. Retrospectivamente, posso encontrar motivos:  porque era uma norma, uma imposição que tinha a ver com a identificação do meu corpo como feminino, ou porque tudo que era divertido tinha a ver com a masculinidade (subir em árvores, por exemplo), e tudo que era passivo e privado tinha a ver com a feminilidade. Muito mais tarde comecei a reler minha própria vida nos termos daquilo que era da ordem do prazer e do espontâneo.

Você faz uso de sua notoriedade como ícone queer de língua espanhola, quase um personagem pop?

Para ser sincero, na primeira vez que vim a Barcelona vindo dos Estados Unidos, havia passado por Paris, e me dei conta de que era a microcomunidade queer trans-bicha-sapatão que estava me empoderando. Não me sinto criador de nada nem que eu tenha inventado nada. Esse tráfico me fez. Por outro lado, a literatura às vezes não chega pelas políticas de tradução. Nos EUA havia um conjunto de minorias sexuais pensando esses temas a partir da periferia da universidade e a partir de seu centro duro. Mas na França e na Espanha, essas linguagens não haviam aterrissado. De qualquer forma, quando dou uma disciplina ou uma aula, isso me dá uma onda como se estivesse tocando guitarra há duas horas e estivesse nesse outro lugar para onde a energia coletiva me transportasse. Isso implica pensar aquilo que não havia sido pensado antes. Mas logo se segue com seus complexos, histórias, etc.

É possível “ser” queer?

É impossível porque queer é um verbo, uma ação, cujo estudo parece estar relativamente na moda no contexto acadêmico. As mesmas pessoas que jamais organizaram um seminário universitátio sobre bichas e trans organizam eventos sobre queer. É uma opacidade camaleônica circular que permite certas coisas em outros espaços. Sua teoria viria a funcionar como uma crítica reflexiva dos processos normativos através dos quais se produz a identidade. Ser queer é uma contradição terminológica. E se pensamos como os movimentos queer emergiram, seria necessário falar de teorias putas, ou teríamos que falar de questões de migrações, racismo e colonialismo. Por exemplo, a última comissão que se reuniu para ditar se as mulheres podem usar o véu islâmico na França – comissão em que participam mulheres – decidiu que o véu está proibido nos espaços públicos como o transporte e os espaços administrativos. Ou seja, uma lei normalizadora que legitima o enclausuramento das mulheres não brancas e islâmicas no espaço de suas próprias casas, que erosiona as liberdades que elas poderiam ter nos espaços públicos. Em toda a Europa, é inacreditável a tensão de islamofobia que vem da tradição de esquerda que considera as lutas de gênero e sexuais como burguesas, prescindíveis e secundárias, ou a homossexualidade como degeneração burguesa. Há uma questão de antifeminismo e tradição colonial que não foi debatida publicamente, o que faz com que estejamos na situação catastrófica deste continente em que a esquerda segue discutindo a respeito de trabalho e classe enquanto socialmente o trabalho perdeu a centralidade como motor de produção, e frente a questões relevantes como as questões de pós-colonização, biopolítica, corpo, migrações e sexualidades ela é tão retrógrada e conservadora quanto a direita.

Este exemplo ilustra por que as sexualidades são um ponto crítico na política.

A mutação dos processos de governo social a partir do século XVIII fez com que o corpo estivesse no centro da gestão do político. Uma ficção histórica transitória em relação às formas de produção econômica do governo do social que inventa uma alma sexualizada, uma subjetividade que tem a capacidade de dizer “eu” e internacionalizar um conjunto de processos de normalização que o levam a dizer “sou homossexual” ou “sou heterossexual”. A sexualidade não é só um conjunto de regulações políticas, e sim, no processo de industrialização que se segue à Revolução Francesa, a reprodução sexual passa a ser entendida como uma das maquinarias do social. É necessário que o corpo social esteja organizado reprodutivamente, ou seja, a família heterossexual.  Essa é a fantasmagoria política em que estivemos vivendo. Em meados do século XX houve uma quebra, e toda a sexualidade não reprodutiva é objeto de controle e vigilância. O sexo é importante porque se converte em um dos lugares estratégicos nas artes de governar. Mas isso que chamamos de sexo não é nada estável, e sim um conjunto de constantes mutações históricas. Agora mesmo as minorias sociais e políticas estão participando e intervindo nos processos de definição das gramáticas de gênero, e isso me parece uma exaltação política, algo novo e fascinante.

Não haveria nesse otimismo uma re-essencialização da substância de um sujeito?

Não, porque não são lutas baseadas em identidades naturais nem mesmo sexuais, nem de pertencimento a uma nação, e sim são uma outra coisa, uma transversal de minorias críticas. A dimensão ética não está diferenciada da política. As técnicas do eu são as mesmas técnicas do agenciamento coletivo. Não é uma aliança natural. Por exemplo, migrantes e gênero não estão separados. O pensamento político pensado até agora pela esquerda pensa nessas exclusões. Mas eu me refiro uma aliança dos sujeitos maus da esquerda, que deve ser pensada. A maioria das feministas, gays, transexuais e transgêneros radicais foram expulsos da esquerda, cujo corpo ideal é viril, trabalhador, reprodutivo. Acredito que a luta é coletiva e que a redefinição do sexo e da sexualidade passará por acordos coletivos. Há outro lugar que está se reconfigurando a partir das lutas, que reclama um corpo que de alguma maneira vá mais além dos imperativos normativos das leis nacionais. Esse corpo se percebe como migrante, fugitivo, e não tem mais o que chamamos até agora de identidade no sentido mais administrativo, ou seja, se trata de um corpo desidentificado.

Ou seja, não haverá um sujeito revolucionário.

Não há sujeito da revolução, disso estou certo. Mas a revolução e a guerra são constantes. Não é um momento messiânico que nos espera mais à frente, para o qual é necessário preparar-se. A situação em que estamos e onde construímos o gênero e a normalidade são a guerra total no interior do corpo e frente a isso, a revolução é constante. Autores como Foucault – próximo das políticas de esquerda e que saiu do carnaval gore das revoluções de esquerda – ou inclusive Deleuze e Guattari, que agitam a revolução de 68, vão se separando desta noção de “revolução”. Frente a essa situação pós-política é absurdamente necessário pensar onde está a revolução, como se produz, quais são as formas através das quais ela atua. A guerra não será depois e a revolução não será amanhã, e sim a guerra é hoje e a revolução é agora.

E como será então a discussão com o Estado?
O Estado deixou de ser o estamento que define as normas disciplinares, praticamente se converteu em um dos tentáculos do capitalismo neoliberal privado. Estamos acompanhando sua privatização, por exemplo, na França a síndrome de disforia de gênero (a desconformidade entre o sexo assignado ao nascer e aquele percebido como o próprio) já não é considerada como transtorno de identidade sexual. O que vai acontecer agora com todos os protocolos e mudanças de gênero? Serão assumidos pela seguridade social? Hoje o Estado é um dos múltiplos aparatos, juntamente aos pós-industriais ou os midiáticos, que configuram o corpo. Para tanto, os movimentos de minorias sexuais não podem estar somente em diálogo e em luta com o Estado, que já não tem a centralidade que tinha. É absurdo ter, hoje, como objetivo conquistar o casamento LGBT, frente às complexidades das configurações pós-coloniais, de sexo e de raça. É preciso atacar essa ficção do casamento, a partir de outro lugar que não seja a legalidade.

Virginie Despentes termina seu set arrebatador, e Diana J. Torres, a jovem artista promissora desta região começa sua performance onde haverá elementos do gore dos filmes de terror, pornografia mutante, e poesia pornográfica: G. G. Allen pareceria ser “uma mulher”. Preciado, a quem todo o lugar já havia vindo saudar, responde à última pergunta, sobre a noção de desejo e escolha que até hoje guiou lutas e reivindicações: “obviamente não acredito que possa haver uma verdade sexual escondida sob uma grande capa de repressões sociais. Não confio nada no desejo, absolutamente não acredito que haja um desejo anterior a um conjunto de normas ou acordos sociais, e sim que o desejo é criado nessa rede de relações, da mesma forma que não há uma identidade que preceda as interpelações normativas. Quando falo em desejo, não me refiro à noção psicanalítica ou inconsciente de desejo, e sim a como o prazer e o corpo se estruturam em uma rede de relações. Desaprender teus 'próprios' desejos, aquilo que culturalmente aprendemos a desejar, é uma espécie de tarefa muito longa mas fundamental”.

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