Discurso de apresentação do Gemis

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Confira abaixo o texto feito pela jornalista Fernanda Nascimento para o lançamento do Grupo de Ação e Debate Gênero, Mídia e Sexualidade - Gemis, ocorrido no último dia 9 de setembro. Fernanda é repórter de política, mestranda em Comunicação Social na PUCRS e é uma das idealizadoras do Gemis. 
"Boa noite,
Gostaria de começar agradecendo a presença de todas e a todos. Apresentar o Gemis para um auditório lotado é a reafirmação de que cada vez mais pessoas reconhecem a necessidade de discutir a responsabilidade da mídia na construção de narrativas que versem não somente sobre população LGBT, mas sobre outras esferas da população oprimidas e estigmatizadas historicamente.
Agradeço a presença do professor Roger Raupp Rios pela disponibilidade de participar deste lançamento e de dividir conosco as reflexões que vem construindo em suas pesquisas. Também agradeço aos colegas do Gemis, por me confiarem esta tarefa importante de dizer, afinal, a que viemos.
Hoje é um dia importante por nos apresentarmos e é um dia de também contar como chegamos aqui. A ideia do Gemis nasceu em abril, em uma das conversas que eu, Samir Oliveira e Débora Fogliatto costumávamos intitular de “homossexualização da sociedade”. O título também poderia variar para “ditadura gay”. E ambos remetem aos muitos dos comentários que recebíamos em nossas reportagens sobre LGBTs. A cada matéria onde a agenda LGBT, sua visibilidade ou invisibilidade era discutida, éramos, em um momento ou outro, acusados de “homossexualizar a sociedade”. Um paradoxo em uma sociedade onde a heterossexualidade é compulsória, como postula Adrienne Rich.
Tanto quanto os comentários nos incomodavam e inquietavam as construções de narrativas jornalísticas realizadas sobre esta parcela da população. Não raro empreendíamos criticas em nossos perfis pessoais em redes sociais, em nossos diálogos com amigos e em nossas pesquisas, propondo uma reflexão sobre quais os sentidos que estavam sendo produzidos, quais os estigmas que estavam sendo reproduzidos e o quanto o jornalismo contribuía para a perpetuação do preconceito ao não refletir sobre o que significam as construções sobre LGBTs.
Em um destes momentos nasceu a ideia de Gemis, com a ideia de propor AÇÃO E DEBATE. E aqui faço uma ênfase na proposta do grupo. O Gemis é um grupo de AÇÃO E DEBATE. Porque não quer se reduzir aos debates entre aqueles que já são sensíveis aos temas, mas estender essas discussões, em ações nas redações e universidades de comunicação.
As narrativas que nos inquietavam fizeram com que refletíssemos sobre qual nossa responsabilidade enquanto jornalistas em auxiliar neste debate. E digo auxiliar porque este debate sobre a responsabilidade do jornalista na produção de notícias, este debate sobre as representações de minorias e o preconceito sofrido pelas mesmas na sociedade já é travado há anos, por militantes que enfrentaram preconceitos em tempos difíceis e continuam travando batalhas contra um fundamentalismo crescente no país.

O Gemis não está reinventado a roda, por assim dizer. O Gemis se soma às iniciativas que vêm sendo desenvolvidas há anos para contestar esse regime heteronormativo no qual vivemos. E, por isso mesmo, nosso primeiro contato foi com uma das ONGs mais ativas de Porto Alegre, o Somos. Reconhecemos, portanto, que temos muito que aprender com estes militantes e pesquisadores. Com as lutas desenvolvidas pela Liga Brasileira de Lésbicas, na questão das homossexuais femininas que sofrem com opressões em decorrência da sexualidade e do gênero. Ou da Igualdade, que aborda especialmente a questão de pessoas travestis e trans.

E o Gemis se soma a estas entidades para discutir uma questão específica da população LGBT: as narrativas que são produzidas sobre esta população. O jornalismo não atua como uma entidade à parte da sociedade, as produções textuais e audiovisuais que produz integram concepções construídas socialmente. Estas narrativas que tornam identidades de gênero e orientações sexuais superiores às outras e reproduzem regimes heteronormativos estão em consoante com valores da sociedade. A pesquisadora Gayle Rubin elaborou uma hierarquia das sexualidades, que gostaria de citar como exemplo.

Sociedades ocidentais modernas avaliam os atos sexuais de acordo com um sistema hierárquico de valores sexuais. Heterossexuais maritais e reprodutivos estão sozinhos no topo da pirâmide erótica. Clamando um pouco abaixo se encontram heterossexuais monogâmicos não casados em relação conjugal, seguidos pela maioria dos heterossexuais. O sexo solitário flutua ambiguamente. O estigma poderoso do século XIX sobre a masturbação hesita de formas menos potentes e modificadas, tal qual a ideia de que a masturbação é uma substituta inferior aos encontros em par. Casais lésbicos e gays estáveis, de longa duração, estão no limite da respeitabilidade, mas sapatões de bar e homens gays promíscuos estão pairando um pouco acima do limite daqueles grupos que estão na base da pirâmide. As castas sexuais mais desprezadas correntemente incluem transexuais, travestis, fetichistas, sadomasoquistas, trabalhadores do sexo como as prostitutas e modelos pornográficos, e abaixo de todos, aqueles cujo erotismo transgride as fronteiras geracionais.
  
            Ora, esta hierarquia parece bastante semelhante às narrativas midiáticas. Há um privilégio pela representação da homossexualidade marital. Basta ver que os embates entre os programas de governo de presidenciáveis sobre a população LGBT têm sido reduzidos a uma questão: o casamento entre homossexuais. Basta ver a disseminação do termo homoafetivo, que higieniza sexualidades, que as torna mais palatáveis.
            Mas ao dizermos que o jornalismo não está apartado da sociedade não significa eximir a responsabilidade do jornalista. O Manual de ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) cita, por exemplo, como um dos deveres do profissional “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias”. Ou seja, contribuir para que não se reproduzam perseguições e discriminações.
            E aqui, parece importante citar uma das premissas do grupo: a de que LGBTs não são um grupo homogêneo. As discriminações de que falamos aqui, são diferentes para lésbicas, gays, transexuais. As discriminações também são diferentes porque LGBTs não são apenas constituídos em suas identidades por seu gênero e sexualidade, mas atravessados como sujeitos por variáveis como classe social, raça e geração. E que é importante que esta proposta de reflexão proponha um debate sobre estas especificidades.
            O que para alguns pode parecer um policiamento da linguagem, um excesso de zelo em decorrência do que se tem chamado de uma “política do politicamente correto”, para nós, nada mais é do que uma reflexão sobre respeito e dignidade. Por que as narrativas sobre homossexuais de gerações diferentes sempre traz consigo uma fina ironia sobre relações que não envolveriam afeto e sexualidade, mas apenas um interesse financeiro? Por que nas narrativas em se fala de transexuais é necessário explicitar o nome dado à pessoa no nascimento? Por que em um jornalismo que se propõe a ser investigativo, a polícia é a única fonte e a vítima se torna culpada? Por que quem questiona estas premissas é acusado de “homossexualizar a sociedade” em uma sociedade na qual a única sexualidade aceita é a hétero e onde os gêneros devem seguir as mesmas designações do sexo?
            Acredito que o Gemis venha para perguntar e refletir sobre estas responsabilidades, sobre estas implicações, sobre as visibilidades reguladas que os LGBTs adquirem, sobre os silenciamentos daqueles considerados inferiores.
            E se antes contávamos apenas com nossos debates em fóruns de amigos, hoje podemos dizer que muitas pessoas se preocupam com a temática. São mais de 20 pessoas construindo este grupo, alimentando redes sociais, organizando questões práticas, discutindo e refletindo, compartilhando conhecimento, ensinando e aprendendo e buscando, sobretudo, contribuir para que a comunicação seja mais igualitária.
            Desde abril crescemos muito e desde que anunciamos nossa chegada vimos que temos muito a crescer. Já recebemos convites para participar de palestras em universidades, diálogos em espaços alternativos e em redações. Estamos nos organizando para fazer com que nosso debate gere AÇÕES e para que estas AÇÕES resultem num jornalismo mais plural e diverso.
            Obrigada."

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