"A representação da diversidade sexual na mídia é parcial, insuficiente e desigual"

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A mídia tem priorizado narrativas policiais sobre a população LGBT e se eximido de questionar as condições estruturais responsáveis pela homofobia. O apontamento é do prof. Dr. Roger Raupp Rios, um dos palestrantes no lançamento do Gemis, na próxima terça-feira, 9, às 18h30 (no Museu de Direitos Humanos da América Latina).

Nesta entrevista ao Gemis, Roger enfatiza a importância da formação de jornalistas para o questionamento das discriminações heterossexistas. “Parece-me haver uma reiteração de percepções naturalizadoras de preconceitos que reforçam as engrenagens sociais da discriminação”, avalia. “Na maioria das vezes, a representação da diversidade sexual na mídia é parcial, insuficiente e desigual”, sentencia.

Gemis – Qual a importância de se debater as relações entre mídia, gênero e diversidade sexual, levando-se em conta as narrativas produzidas sobre as vivências da população LGBT? O senhor diria que todas as pessoas representadas na sigla LGBT encontram a mesma expressão na mídia, o mesmo tipo de produção de narrativas?

Roger Raupp Rios – Debater as relações entre mídia, gênero e diversidade sexual é muito importante. Em primeiro lugar, porque se tratam de manifestações e expressões da vida, individual e coletiva, subjetiva e cultural, muito valiosas e necessárias para a busca da felicidade e para a constituição de uma sociedade justa. Como ocorre com profissionais de todas as áreas, e, creio, mais importante ainda na mídia (dada a função e a importância política e cultural dos meios de comunicação na sociedade da informação), aqui é preciso formação e é imprescindível uma postura crítica diante de preconceitos e discriminação sexual e heterossexista. Para tanto, os profissionais da mídia têm que se capacitar e se politizar. Vale dizer, ir além do senso comum conservador e propiciar condições para o debate público racional e questionador das injustiças e da opressão baseadas numa visão heteronormativa. 

Um exame das narrativas midiáticas sobre homofobia mostra isso. Tendo presentes os dados levantados em pesquisa de que participei sobre o tema (Observatório da homofobia e da diversidade sexual na mídia brasileira,  coordenada pela Ong brasiliense  Anis), tomando as narrativas textuais e imagens sobre violência homofóbica, percebe-se que dentre as fontes prevalentes estão as narrativas policiais e  que vítimas e seus próximos (parentes e amigos) são tomados de modo individualizado e fora  do contexto maior de injustiça e de opressão gerador da violência. São necessárias narrativas mais abrangentes, contextualizadas e criticas. Para isso, iniciativas como a Gemis são fundamentais.

Gemis – Como avalias, em geral, as produções veiculadas na mídia sobre a população LGBT? A mídia acaba produzindo novas formas de discriminação, ou apenas reproduz as que já existem na sociedade?

Roger – Como mencionei anteriormente, as narrativas são, em geral,  fundadas muitas vezes nas vozes da policia e trazem a condição das vítimas de modo parcial e fragmentado. Há também silêncio não só sobre o contexto e as raízes do heterossexismo, como também falta questionamento sobre as políticas públicas (e sua ausência) destinadas a enfrentar essa grave e tantas vezes letal realidade. Nesse sentido, parece-me haver uma reiteração de percepções naturalizadoras de preconceitos que reforçam as engrenagens sociais da discriminação. Desde uma abordagem desrespeitosa das identidades das vítimas, beirando quase sua responsabilização como produtoras das condições onde se desencadeiam as discriminações, até a desconsideração do pouco caso estatal e social diante da homofobia. Nesse sentido, muitas vezes há passividade da mídia diante da  homofobia, fenômeno que não se reduz à mera reprodução da homofobia disseminada socialmente. Há, tantas vezes, a omissão diante de uma tarefa que os meios de comunicação têm que cumprir na democracia.

Gemis – A representação da população LGBT na mídia acaba reforçando identidades, afetos e vivências ou tem um efeito contrário? O termo homoafetivo, oriundo do Direito, se disseminou. Mas é bastante criticado pela militância LGBT. O que acha da utilização desta palavra na mídia? O que ela simboliza e o que silencia?

Roger – Um olhar atento para as narrativas e imagens da diversidade sexual na mídia revela o predomínio nítido de determinadas abordagens sobre expressões, identidades e orientações sexuais e de gênero. Se nas narrativas midiáticas sobre violência predominam registros policiais com todos os limites que mencionei nas perguntas anteriores, nas narrativas sobre direitos (união estável, casamento, previdência, por exemplo) há predomínio de uma visão homonormativa.

Aqui, utilizando esse termo, quero referir narrativas onde a diversidade sexual aceita e representada é aquela que se deixa assimilar, aparentar-se, tomar como modelo tudo que tradicionalmente se associa à heterossexualidade pequeno-burguesa. Suas características são uma conjugalidade romântica bem-comportada, um assumir acriticamente como modo de vida prescritivo os tradicionais "deveres conjugais" listados na lei, na moral e nos bons costumes tradicionais.

Não por é acaso, portanto, que as narrativas midiáticas se valham de expressões correntes, no mundo do direito e por alguns setores do movimento LGBTTI, tais como homoafetividade. Ainda que bem intencionadas do ponto de vista da intolerância sexual, trata-se de um termo que "higieniza" e "domestica" a sexualidade da esfera pública e política, onde a discriminação e a injustiça sexuais e de gênero são geradas e praticadas. Pedindo licença para a imagem, estamos diante de um  "Cavalo de Tróia" da conjugalidade romântica heterossexista. Isto porque do ponto de vista discursivo, tais abordagens subrepresentam, quando não anulam, expressões e identidades sexuais e de gênero discriminadas precisamente por aquilo que não enunciam: o sexo como prática e a sexualidade como esfera da realidade.

Com efeito, o que fazer diante do sexo e da sexualidade onde não há conjugalidade, nem afetividade (por exemplo, práticas sexuais estigmatizadas como o sadomasoquismo ou o trabalho sexual, sem falar na liberdade artística, em matéria de erotismo).

Este mecanismo higienizador e assimilacionista, aplicado a outras hipóteses, fica mais claro. Pensemos no racismo. As diferenças entre seres humanos são racializadas para produzirem hierarquia racial, privilégios de uns e subordinação de outros. Denunciar a injustiça dessa hierarquia abominável requer falar de distinções raciais injustas. Qual seria o sentido e quais seriam os efeitos de eliminar discursivamente o elemento racial para o combate ao racismo? E se propuséssemos, com o perdão do neologismo de mau gosto, não um estatuto da igualdade racial, mas um estatuto da "afetividade cromática"?

E o machismo e o sexismo? Para compreendê-los e enfrentá-los, para afirmar a liberdade de gênero, deve-se ignorar o elemento estruturador da dominação masculina, expurgando o gênero e seus arranjos desta equação? E, se assim for, substituir-se o termo heterossexualidade (onde se encontra textualmente o elo do sexismo e, assim, coloca-lo em segundo plano) pela expressão "heteroafetividade"? Afinal de contas, o que incomoda na homossexualidade, pedindo até nova expressão,  que não afeta a heterossexualidade?  E qual o efeito de se adaptar a este "incômodo", em vez de denunciar a injustiça dessa lógica?

Neste quadro, dentre tantas consequências comprometedoras da democracia e da diversidade sexual, destaco duas diretamente relacionadas à comunicação social e as narrativas midiáticas sobre diversidade sexual.

A primeira é que, nesta lógica, o que se produz é homonormatividade, ou seja, uma limitação da diversidade sexual. Só se torna inteligível, compreensível, aquilo que se adapta, se deixa assimilar aos padrões tradicionais quanto à sexualidade.

 A segunda diz respeito à liberdade de expressão, que fica reduzida no seu horizonte de possibilidades e acaba silenciando outras experiências e vivências. Todo resto é conduzido para uma zona de precarização da existência, de vulnerabilidade, quando não de abjeção. Tanto a expressão no próprio enquadramento dos registros jornalísticos sobre fatos (lembremos as diferenças nas reportagens policiais sobre homofobia e naquelas sobre diversidade centradas no casamento), quanto até mesmo a auto-censura sobre obras artísticas cujo objeto seja erótico.

Enfim, para concluir, indo diretamente às perguntas: na maioria das vezes, a representação da diversidade sexual na mídia é parcial, insuficiente e desigual; como ocorre com o termo "homoafetividade"; são privilegiadas abordagens conservadoras e silenciadoras da diversidade. O papel da mídia, numa sociedade democrática, é possibilitar e amplificar o debate crítico e informado sobre a diversidade, e não reduzi-la a dinâmicas assimilacionistas.

5) Quais projetos de lei tramitam hoje que tratam dos direitos da população LGBT e como avalia o impacto que elas podem exercer na redução de desigualdades? Quais avanços têm ocorrido, juridicamente, sobre o tema?

Roger – Há projetos interessantes capazes de fazer avançar o debate e a democracia.  Listo os mais famosos e, na minha opinião, mais importantes: a criminalização da homofobia, a autonomia nas questões de identidade de gênero e a regulação da prostituição para evitar a exploração sexual. Se articulados política, social e culturalmente (e aqui mais uma vez nunca é demais lembrar o papel crucial da mídia) podem diminuir efetivamente as injustiças e melhorar nosso convívio democrático. Nos últimos 18 anos, houve importantes avanços no judiciário. Nossa trajetória mostra que, ainda que necessitemos aprofundar bastante este debate e as compreensões ali veiculadas, foi o lugar estatal onde tais  demandas foram canalizadas com maior sucesso e repercussão.

Mas o que me chama a atenção e preocupa mais são os perigos de retrocesso.  A conjunção cada vez mais intensa e presente de intolerância, racismo, fundamentalismo e homofobia cresce em todos os setores da vida nacional. Projetos de lei e de emenda constitucional querendo dar status de agentes políticos a organizações religiosas e restringir direitos, num ambiente de apatia política com contaminação dela  por crenças religiosas são um terrível caldo de cultura. Tomara que este temor seja exagerado. Mas prefiro nutri-lo, mesmo que sem a pretensão de ter feito um diagnóstico acurado, ao menos como um exercício de vigilância e compromisso democráticos.


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